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segunda-feira, 30 de novembro de 2009


OS 5 FELIZES / Josette Lassance
Por Karina Jucá (poeta)

Josette Lassance atinge a maturidade no gênero conto (O Prédio; No Último Desejo a Carne é Fria; Galeria Dos Maus) no livro Os Cincos Felizes, e apresenta densidade de conceitos, e força na habitual energia lírica das imagens.

Lassance assenta sua lente hiperbólica em cenários não decorativos, onde objetos podem ser, por exemplo, símbolos-fetiche: carros, um trem, um prédio, borboletas...

Outras imagens podem vir de lembranças reinventadas da infância, que se misturam à Memória de Belém do Pará, nostálgica, sempre áurea e decadente. Um paradoxo arraigado no inconsciente coletivo da cidade. A cidade natal, no entanto, é vista da perspectiva do crítico e do voyeur, distante de regionalismos, visão que brinca com os estereótipos de cidade sentimental, de herança estética afrancesada (como o próprio nome de batismo da escritora), e até mesmo provoca escatologia (Enigmas Fotográficos, Noites de Marfim, A Última Chuva em Belém, respectivamente). Com efeito, o espírito e a constituição das cidades, reais e fictícias, são personagens importantes na obra total.

Afora a índole dos mitos urbanos, os temas recorrentes são caros à época: o fluxo e as fronteiras do tempo; a saturação dos sentidos e a dissolução de valores na pós-modernidade; os "amores líquidos"; a velocidade; hiper-realidades e tecnologia como recurso perverso ou transcendente; a visão nostálgica do "futurismo" como idéia já datada de futuro; o vazio existencial.
Outro ponto a destacar é a diversidade de estilos para o gênero, que perfaz desde a prosa-poética (Anjos de Plástico) às histórias "cinematográficas" (Roadie Movie em Sax Night, Policial em Encontro Marcado). Caso de A Última Chuva em Belém, conto apocalíptico à Blade Runner. A decisiva influência do cinema se nota pelo uso deliberado de clichês (imagens, ações, palavras) do way of life norte americano, além da própria compleição narrativa.
O recurso qualifica Lassance como "autora pop" que parece ter em mente que até mesmo o icônico Ezra Pound decretou a morte do intelectual com o advento do cinema, para o bem ou para o mal. A ironia da aparente contradição em relação à literatura canônica é patente.
Em outras palavras, Lassance reflete sobre o lugar do Homem contemporâneo, na literatura e no mundo. Exemplo disso é o conto Supermercado, que remete incidentalmente ao poema de Allen Ginsberg Um Supermercado na Califórnia, no qual o poeta da Contracultura trava uma conversa imaginária com outro americano, Walt Whitman, reconhecidamente um vate patriota.
Dentro de um supermercado imaginário, Ginsberg discorre sobre os desdobramentos da visão mítica fundadora da América, cristalizada no ideal do "Sonho Americano". E indaga, entre reverente, irônico e confuso, sobre as implicações da ideologia que implica o modelo capitalista: "... aonde vamos nós, Walt Whitman?"...

O supermercado californiano e ginsberguiano, ora um confortável ethos temporal, ora um inquietante limbo histórico, dá lugar ao supermercado de Os Cinco Felizes, substituindo famílias saudáveis por personagens indiferentes e sem relevo, figurantes que passeiam por corredores a perseguir produtos como caçadores arrefecidos, sonâmbulos. Aqui, a tensão insinuada por Ginsberg se exacerba. E a consumação da crise econômica, por exemplo, dá mostras da atualidade dos motes da Contracultura, e Lassance parece estar atenta ao fato, avançando com o questionamento, mostra que hoje a sedimentada ideologia prescinde de uma moral que a respalde. Deste modo, perguntaria então a autora: "aonde vamos nós Allen Ginsberg?". Para a entropia, para uma visão pessimista da História? Veremos a seguir, que uma possível resposta pode ir além de maniqueísmos.

Na dialética estabelecida pelos contos, entre os quais alguns de teor niilista, uma tese ou síntese intrigante está no próprio título (que também nomeia um dos contos do livro): Os Cinco Felizes. Este que alude aos contos de fada, isto é, faz menção a uma narrativa mais "ingênua" e lúdica, menos intelectualizada e racionalista.

No conto homônimo, um homem traça um "projeto de cidade futura”, porém idílica. Na metáfora a necessidade da emergência de esperança, harmonia apolínea, e por outro lado, paradoxalmente ingênua. O conto é uma ode do valor intrínseco da capacidade de criação/construção do Homem, e, positivamente, a crença no avanço como seu processo fundante. A contradição está na possível viabilidade desse avanço, que significaria um retorno à pureza, à natureza. Pode o tempo retornar como pensavam os orientais, cada vez mais ocidentalizados? Impasses do conto: Apolo e o Dioniso polarizam, intermitentemente, e o conteúdo crítico colide com o mito do progresso.
Após o retrato da crescente desumanização em O Prédio, outro tipo de cidade e (por que não?), de modelo de desenvolvimento, ascende na cabeça da personagem, suscitando a dúvida: escapista sonhador, ou visionário? Essa ambigüidade quanto ao futuro, fundamentada na História, e posta à prova na precisão da metáfora, dá mostras da atualidade da escritora. Aonde vamos, Allen Ginsberg? Aonde vamos, JosetteLassance?

O desdobramento da conturbação conceitual engendrada na obra está neste conto cujo narrador é um "arquiteto" que projeta uma cidade melhor, uma cidade possível ainda que imaginária. Do mesmo modo que a história universal é um resultado não apenas de construções cognitivas bem delineadas, mas de fantasmagorias (fantasmática) legitimadas e tornadas consensuais. Tudo surge do mito e retorna para o mito.

Ou seja, ainda que precariamente, eleva-se o Homem em si mesmo. O artista em si mesmo. Por que "nesses inexatos dias, há córregos, onde atravessam todos os homens perdidos, e eles decidem que sua impermanência no subúrbio do universo seja preenchida de autoconfiança, e referenciada por anônimos deuses".

Desconstruir a história: “sonho cavalar: o cavalo, depois de comer a carroça, contempla o horizonte” (Henri Michaux). Reconstruir a história. Passionalmente, catalisar o horizonte quando obscuro. Acender os sentidos e os nortes do Homem pela intrínseca fantasia. Torná-la real. Essa é a função da arte.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

LANÇAMENTO DO LIVRO OS CINCO FELIZES

SEXTA-FEIRA , DIA 27 DE NOVEMBRO, LANÇAREI OS CINCO FELIZES(CONTOS/ED. PAKATATU, 2009), MEU QUINTO LIVRO, NA TABERNA DE SÃO JORGE, NA CIDADE VELHA, TV. SÃO FÉLIX (AO LADO DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA). AGUARDO OS AMIGOS, OS LEITORES E TODOS QUE QUISEREM IR.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O mesmo olhar da rua

...ainda não sabia usar meu olhar quando visse algo parecido com a cena de ontem, um homem vestido por um short suado e riscado de noites mal dormidas andando, caminhando? através do asfalto das duas da tarde, Almirante Barroso, a via mais movimentada da cidade de Belém. Um louco? um transeunte torto? um ermitão? ou um expectador da vida perigosa? Um flanneur pós moderno, líquido, ou alguém que parou no tempo dos neandertais e agora revisita sua floresta remodelada de cal? Os carros enfileiravam-se para não se perder diante de uma possível morte , assassinato no trânsito caótico; ele parecia estar num mundo à parte, queria morrer com essa velocidade intrínseca, seca e suja por fora de seus vestidos rotos. seu rosto não me parecia perdido, ele sabia o que estava fazendo e não fazendo ali, em plena secura de um sol achatado pelas nuvens amordaçadas pelo mormaço... Ele caminhava descalço com pés quentes e calejados de destino, ali, no quase equador, aquele homem sem sombrinha qualquer, poderia se despedaçar a qualquer segundo entre as latarias folgadas dos ônibus sucateados, ou uma motocicleta sem luz, um Jeep reluzente, uma bicicleta, um carro pipa...ele não parecia se importar de que forma morreria, o formato padrão da morte é um empacotamento sinistro que deságua em geladeiras-calabouços do necrotério público, mas aquele homem sabia chamar atenção, e me chamou daquela forma pouco convencional em que o medo que eu possuía naquele instante de quase morte, eu poderia sentir a posse de seu sangue se misturando à gasolina e fumaça de turbinas e ao cotidiano daquelas pessoas que passariam por ali, veriam aquela tragédia e que no máximo serviria para uma crônica de alguém que escreve em blogs publicar, ou para quem sabe, a partir dali, pudesse ver o mundo com bons olhos, olhos de quem não se perderia mais em seus destinos.

Josette Lassance

terça-feira, 3 de novembro de 2009

dos anjos
aquele poeta
de ouro preto
esse poeta
é quem risca
o barroco
com sua voz
grave
de quem
tem amor
em seu jardim
nascem flores
de papel
tinta
e cheira
a de-lírios
dos anjos
flama
sua alma de arcanjo
me entrega
algo
que pertence
ao céu
estrelado
dos anjos
desejando sinos
desenha
símbolos
escondidos
em suas auras
dos anjos
sobe
e some
nas ladeiras escuras
enquanto
parti.
quando fui buscar as flores
borboletas haviam nascido
confusas
suas asas batiam
nas cores
lilás era um dia preso
pedras e limos
grumos e crânios

você não estava no lugar
foi buscar no passado
um pedaço de lembrança cortada
fazia uma ferida
e a chuva lavou
o instante

hoje creio que silêncios
preenchem

vazios
e perfumes
são amuletos

palavras
são apenas palavras

e acabam voando um dia...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Lançamento em Ouro Preto


Josette estará lançando no Fórum das Letras em Ouro Preto-MG, no dia 29 de outubro de 2009, seu quinto livro de contos, OS CINCO FELIZES, Ed. Pakatatu, prefaciado pela poeta e ensaísta Karina Jucá.


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

DESERTO CÃO

aqui é noite no deserto cão
o mundo faroeste, entre inimigos e inimigos
ele é um vale... um deserto onde os homens se perdem

daqui mesmo, onde o olhar se reparte, da miragem da estrada seca até a caveira do gado
os ranchos de madeira que a ferrovia entrecorta

vejo todas as coisas submersas em seu sentimento. Coisas que profanamos sempre, sem nenhuma ternura, burlando os eternos laços dos rituais sagrados

nessa hora perdida se fundem pedaços e o vazio preenche o horizonte
nada além do que uma mesquinha vida
de armadilhas armadas

aqui é noite no deserto cão
nem mesmo as sombras do jasmim caem sobre o chão neste verão seco, cheio de luas enormes
onde o vento traz desejos

mundo faroeste
mocinhos, bandidos e bandidos se compensam em iguais

daqui mesmo vemos todos nas tempestades de areia
aos rifles e ao estilhaço
das espingardas

aqui é noite no deserto cão
e o dia é de pó, sangue e suor dos homens
que se destinam
a uma terra
que jamais terá dono,

será como as noites
de veludo e carne
entre faunas de pedra
e luxúrias do céu negro

nada lhe dará vínculos
onde possa arder o mesmo rosto do sol no crepúsculo
e nada mais se poderá fazer

cansamos do ácido
das fantasias de robôs

cansamos do que não signifique
enlace

aqui é noite no deserto cão


hora perdida
hora de pedra
hora de uivar para as cinzas da lua.

(poema premiado no concurso do C.a.l (2008)



segunda-feira, 21 de setembro de 2009

saudade

hoje
acordei assim
essa saudade
minha
esse alvorecer sem rosas

hoje acordei
e não havia aromas a tecer
pelas varandas

o jasmim
vencido

trazia seu esqueleto seco

e essa fumaça
de carros
chaminés
de usinas velhas

invadiu a cortina
de ferro da cidade

essa feroz turbina
do dia

não trouxe
nenhuma

canção

hoje acordei
com uma saudade única

mas não queria
crer
que pudesse
ser uma saudade
anêmica

de beijar
o panô do tempo

e
ver o teu rosto puído
roto como um um degrau da vida

tantos caminhos
me deixaram assim
acordar com saudades

e ser a poesia do dia

hoje acordei assim
e não deveria

por honra
das horas

por honra de mim mesma

não deveria
ter saudades.







anjo

o anjo segue o caminho

embora cegue
a paixão

o anjo voa
sem medo

vai sem cor
po

sua alma me visita

por quê

se ainda o abismo
manchado

do tempo

partiu
o coração?

por quê
se ainda
dizes
mais
do que não tens

por quê
maldito

anjo
me fizeste
crer

que existas?

por quê
insistes

em ser anjo?
















riscos

você
uma ideia sua
não há nada no disco
raios
e ventanias
acendem-se
quando (a cor do)
seus olhos desapareceram
então os riscos
que fizemos
deixaram o paraíso
em pleno céu escuro.

do que se esqueceu

há noites em que estranhas estrelas se aglomeram e vêm buscar meu corpo para um ritual secreto

eu as vejo juntas e brilham como velas acesas de um sonho

vejo letras miúdas atravessar o poente no lago verso do rosto

algo acende não se fala mais do objeto que não se identifica como eterno

nada nasce

senão

um anjo virtual

apagando-se

na memória

de todos.

domingo, 13 de setembro de 2009

não tao perto assim

tenho fechado os olhos
tenho tentado não te ver

te ver é passagem
distante

quase ausência
quase mesmo um silêncio livre

de todos os outros sentidos
te ver é como não ter mais alma

grande mistério dos olhos

te ver é sonhar
quase de perto

com o infinito

te ver
é quase impossível

por isso
tenho fechado os olhos

para não te ver mais
partindo..

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

TEMPO

Algo respira

um dia em que olhares nos olhos do fogo me verás

entre as pedras do tempo

quando quiseres falar

já não haverá vento que te leve

porque quando me procurares

já não estarei mais

puxarás em teu coração o pássaro azul de Bukowsk

algo preso

como um silêncio cego

do livro da morte

o passado azul empalhado

dentro do teu peito quente/frio

do amor ilusão

quando quiseres me ler

lerás as cinzas

do que queimaste em carne viva


um brilho de fome

permanecerá em ti

permanecerá em ti

permanecerá

em ti.

DENÚNCIA

Eu denuncio o prazer de ter tido o desprazer de não ter sido
o demolir do novelo
antes do primeiro vôo
como um silencioso corpo
como um misterioso animal preso aos corais
eu te denuncio
renuncio ao uso indevido dos sonhos
da música ter entrado assim como um líquido complemento de placenta
do não - nascer
como um aborto do mundo indesejado
eu denuncio todas as palavras escritas que fincaste na lua
à luz das estrelas mortas
ao sonho do infinito universo
eu não preciso de gritos preso
como células com sangue
por isso solto o verbo parido
a surpresa vindo da garganta ferida
feto que se aprisiona no nicho sobrenatural
eu te denuncio como um falso diamante
um fogo fátuo
uma armadilha para humanos
te denuncio como superfície da pele
raso perfil de sonho maquiavélico
que pouco revelo à carne do mundo
no que se desfez - raiz
o que se refaz em mim agora
esse par de asas de ferro
projeto ousado para o mundo feito de pedras
no mundo dos que não ousam amar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

CAFÉ SEM LETRAS

Segui até a cafeteria.. Aroma amargo disperso saiu do café. Café sem letras e sem nome. O alfabeto se perdera tonto no giro da colher. O leite amontoando-se às cores dos grãos, a noite quase chegando. Brasília se põe devagar sobre a mesa, enquanto rabisco o meu papel. Tem um cheiro seco da noite, sem o estranho estalar das folhas do cerrado. Tem um olhar preso no emaranhado de nuvens quase ralas em cirros que atravessam o buscar do quase não sei horizonte onde enfiei meu olhar perdido.

O livro ali, sobre o estar secreto de uma possível reunião. No meio de homens de preto e seus sinceros cigarros apagados antes do entrar, suas gravatas sujas de um azul que não lembra o céu, mas a cor do cimento misturado da cidade “prisão ao céu aberto”, de uma cidade quase moderna, não fosse o nicho de seus antepassados.

Enfiei o livro na bolsa, ele ali não precisa respirar o ar das horas em que escuto o quase alcorão de meu trajeto profissional, quero que ele fique parado, como um coração simétrico, que não se desfaça, nem se despedace, mas que se mantenha integrado ao sistema que lhe é peculiar. Na hora certa sairá dali para as estantes de quem quiser servir-se de suas palavras.

A noite é quase longa, nem conto com as estrelas, a catedral me dá um aceno às escondidas e saio para os bares. Estão cheios de velas acesas e me presenteio com um vinho, cálice da noite, desconheço idéias que não me tragam prazeres, quero o prazer de estar ali.

No quarto de hotel, lembro de uma torre, um dia, lembro de um lago que troquei de nome, lago sul, lago azul, escambo de pronúncias, nada mais tão importante que o próximo momento em que pegarei o avião de volta para o norte.

Algo inquietante estar numa cidade em que se aprende a viver sozinho sem qualquer sorriso, algo inquietante, mas profundamente enriquecedor. Sou dispersa e quase me atrapalho com o dia, então vou a UNB buscar informações. Saio dali em transe, não como da última vez, mas com um outro brilho no olhar, de quem tem a certeza.

Hoje verei o pôr do sol do lago, ele é largo, mas não é profundo, em seu mirante vejo coisas em miniatura, como soldados de chumbo se derretendo, não de calor, mas de miragem, vejo Lock Ness e seu Moby Dick, cavalos marinhos de água doce, corcéis e plânctons passeando tontos em suas margens.

Brasília tem uma energia de quase centro, o centro do Brasil, o centro das horas, o centro de desérticas paisagens ralas de quase um cenário de filmes italianos.

Mas falando em comédia, saio todos os dias às cinco de meus compromissos e caminho em passos largos porque a grama é toda minha, posso ir aonde quiser e caminho, cada monte e pedaço de terra eu costuro com meus passos que nem são apressados, tão pouco lentos demais. Hoje não sei o que fazer com a noite. Ligo para meus amigos em Belém porque aqui não conheço ninguém.

Abro o caderno e escrevo. Deixei palavras escritas em cada lugar que fui. São meus rastros. Minhas bombas de terrorismos poéticos.

Ainda me restam dois dias. Às cinco da tarde, hora de Brasília busco o asfalto e apanho um táxi, pergunto ao motorista onde há um lugar vivo com pessoas alegres, vejo um amontoado de pessoas e desço, acho que terá um show, uma feira, não sei ao certo, as pessoas parecem tão próximas e me sento em uma das barracas. Meia hora depois recebo um oi de um rapaz muito simpático. Coincidência ou não ele estuda na UNB, começamos uma conversa agradável, inteligente, gentil. Saímos dali para uma dessas festas de bandas de rock, que eu tanto gosto, ele tem 32 anos.

Ficamos amigos então ele descobre que escrevo, e mais uma coincidência, ele também escreve e bem, ensaia publicar seu primeiro livro, mas tem um blog que se chama Delírios do planalto, eu rio de primeiro com essa ilusão, aqui estou de pára-quedas , de novo apaixonada pela vida, mas desta vez de pára-quedas, de olhos bem abertos em pleno ar de Brasília e suas asas de anjo coberto de poeira.

FIM DE FILME



Bankok – adoro a sonoridade dessa palavra – ela parece um misto quente sonorizando chuva e sombrinhas usadas e puídas por ter encostado nas paredes das ruas mal arrumadas dessa cidade que sequer passei. Onde fica bankok? De lá a gente conhece somente a paisagem pastel do cinema americano. Mas me lembra prostitutas e máfia. Me lembra chuva e clima de passagem.

No cinema depois que já passou muito tempo, se olha para tela e vem uma sensação vazia de uma imagem sem nada por dentro, o significado da morte permanente e a casca da vida por fora aparecendo uma viva lembrança de movimentos e vibrações nervosas de que algo existiu enquanto cenário e encenação de atores que agora estão no túmulo ou velhos bizarros falando sós em suas casas-museu.

Pinheiros negros nos lugares em que nada existia naquela rua vazia em que o céu abrigava um sol e que fazia sombra nas coisas hirtas, cacos do mundo, telhados com falhas e outras existências, camaleões sobre o limbo das palmeiras.

Ninguém ali para contar história alguma. As vozes do outro lado sendo gravadas depois que a cena passou. O animal empalhado em cima da janela gigante sobre uma pintura desgastada onde um emblema de vende-se esta se desfigurou. Cansou-se de existir, o êxodo do ouro sobrevivente, a permuta da localização.

Camufla-se o posto de gasolina, os carros enferrujados, o vento cortando o cerrado com seu grito de impunes sons que desafiam a velocidade das estradas.

Os homens em seus bonés, os cartazes do período, foto de um comercial no tempo em que o posto engolia enxurradas de dinheiro em troca de cervejas de boa marca e cigarros, a gasolina que ainda era pura e algumas pessoas pediam carona.

Tempo que ainda se acreditava em discos voadores, e se reuniam milhares de garotos propagandas de ets, com suas revistinhas de bolso, alguns jeeps paravam para olhar o céu, mas no máximo avistavam estrelas, ainda fazia um pouco de frio acolhedor então o homem fazia uma fogueira para se juntarem às histórias de terror.

Homens, mulheres, crianças, velhos... sumindo assim a poeira levantada borrifa um bafo no lugar onde a porta poderia estar aberta. A porta fechada que alimenta o resto do corpo da construção, mas o resto da construção é o vazio, as reticências de um roteiro rasurado de palavras e símbolos fetiche do sagrado passado.

Pendurada placa balança como um balanço num playground de um edifício de uma cidade qualquer longe dali, depois que as crianças enjoam do brinquedo e saem para suas escolas, depois que a sirene toca mostrando a hora da entrada, depois que se despede da paisagem de um gigante longa metragem filmado numa década em que se ainda acreditava em mocinhos e bandidos se fizessem de tonalidades diferenciadas.

Mais tarde, lá enquanto novos bichos pastam, como o dragão a pastar, a sede da terra é maior, mas não vem a chuva molhar esse chão, depois no futuro o chão é granito puro, invenção de quem não gosta de sentir o gosto da terra em seus pés e se afasta da natureza de onde veio embalado com sua origem. Mais tarde a terra ferve. E as bandeiras que acenavam o porte dos lugares amanhecem e anoitecem como a mesma cena que se repete e se desgasta no tempo que passa e que passa e que passa sobre os calendários que não existem ali. Aquelas cores preferem sumir e misturam-se tanto ao negro da terra, ao azul do céu quando o sol recomeça no verão tudo de novo, tudo de novo se renovando e se manchando de cores novamente novos sobretudos.

O novelo das espécies, a fauna renovada, a flora feita de ervas verdes oliva, as flores pequeninas nascidas às margens de um lago que um dia foi azul porque se encostava-se ao espelho do sol, selvagens flores que nascem nas beiras das estradas que não dão a lugar nenhum, senão continuísmo da própria paisagem em movimento das telas de um cinema.

Década de café e extremos, o cinema foi vendido porque não dava mais lucros filmes de arte, assim como a arte inútil em se ficar insistindo em existir, o cinema não mais se encaixou com a tecnologia digital exigida, novo formato de cenários que não são mais vivos, a metamorfose do gráfico da computação, o cenário de groselhas silvestres virtual, mudança de paradigma.

O cinema clichê piegas virou estamparia indefinida em um bazar pirata de um caminho marginal, tomando chuva e sol até o caos poético por suas infindáveis vastidões desertas do planeta crescer sem controle de suas cidades fantasmas.

Ri-se alto, reverbera a noite as pedras são lançadas, amontoam-se ao verbo lixo. Enxurrada de uivos, os cães sobem no asfalto para percorrer o inexistente, exaustos jogam-se no abismo para onde não mais se vê. A penumbra cobre a queda livre. Os ossos batem nas pedras.

Música de the end. Finita história de dois mundos. A morte e a vida. A vida e a morte. Um dia nem se sabe porque se cruzaram numa fronteira fatal.

As cores cinzentas dão lugares abertos às novas flores: Temporada de verão. o inverno está morto.

13 de junho de 2009







O SOL NEGRO
Do Livro de Contos “O Prédio” – 2002
Josette Lassance

Da janela morta a borboleta sai, ilesa, vestida com sua asa de pérola, ganha o imenso céu. Ela ficou escondida no quarto, entre suas paredes vivas que pareciam a engolir - um branco nostálgico quase prata era tomado pela grafite rude onde escrevera palavras quando embebida de sua solidão quase num ato único - correspondiam seus gritos: rabiscos, arabescos úmidos de idéias - cofres perpétuos de insanidades...

Seu cérebro carregava um par de lentes grossas de alumínio fosco: um par de óculos míopes. O que fazia ali era puro desejo, de sentir através das palavras, que acabavam arrancando os sentidos mais íntimos de suas necessidades existenciais.

Acordava e um pássaro pousara nu quase olhando para ela de um fio de rua - suas janelas por descuido ficaram abertas, mas quase sempre mortas para a rua, introspectivamente vomitava sua ira pela luz do sol. O pássaro ficou minutos e ensaiou uma canção rouca de alvorada – ela acordou e quase imperceptível mostrou-se num olho descoberto pelo lençol – dormia nua e quase todas as vezes sua nudez contrastava com sua desordem: um quarto sem início e fim – onde amontoados livros faziam perceber-se como um labirinto em que se perdia quase sempre nas tardes em que lia infinitamente Rimbaud em suas páginas seculares, palavras eternas, amareladas pelo pôr-do-sol.

Um negro saco de dormir cobria sua cama de solteiro e sua pele branca contradizia um sol negro desenhado na parede direita, parecia querer saltar os olhos e os restos de seus cigarros sujavam o chão de taco marrom.

Onde estaria ela, se a cada instante era um gomo de personalidade? Incógnita esfinge revestida de acaso.

Talvez fizesse diferença conhecer alguém que a fizesse amar tão forte ao ponto de não suportar-se liberar suas emoções mais intensas – como a de desfazer-se de um sol negro que a encobria e descobrir-se em sua alma o que pudesse vir a ser um sol de verdade, sem o escuro proposital de um corpo de quarto forjando arbitrariamente uma luz, invertendo seu sentido anti-horário do dia.

O dia grafitado energicamente na penumbra de seus pensamentos... O tempo ali pesado tomando eletro choques e vomitando parágrafos pervertidos cheios de cólera pelo mundo.

Não queria encontrar nada evidente, por isso, esgotava-se nas sensações de pertencer-se primitivamente à sua selvageria. E quando bebia muita cerveja nos bares que freqüentava, quase sempre fazia parecer-se a um porco, com seus cabelos negros descuidados, sujos de gordura soprada pelos ventiladores de teto e enfiava-se num vaso sanitário para vomitar toda a sua vontade de beber, um retorno onírico de desesperanças.

Depois ia para casa fatigada, exausta de ter perdido tantas chances... Como se deixasse de viver por isso.

Deixava-se caminhar com amigos durante as noites mais chuvosas – como a descer a ladeira do Bolonha como se fosse seu desfiladeiro. Lá, poderia sumir de tudo e ser tomada pelo escuro ou multiplicar-se as mil luzes artificiais das ruas inanimadas, como se fossem as casas mais vazias do mundo. Havia um silêncio de sábado, de sinagoga – e uníssono era o som de uma música ferida saindo da boca de um instrumento metálico: agudo/grave/seis pernas marcavam os sólidos paralelepípedos. Sangravam seus sapatos pesados nas veias do chão.

E os momentos todos passaram e o passado não servia.

E todas as formas foram mudando de lugar, a cada dia, a cada banho, a cada beijo...

Via-se apaixonada e os garotos cabeludos foram crescendo e o olhar para trás fora diminuindo de tamanho e sua importância já não era mais a mesma.

A borboleta saíra pela janela morta e sozinha entrou no planeta que escolheu desfrutar suas loucuras preferidas.




Josette Lassance

Livros publicados
1992 - Vida de Bruxa – poesia
1994 – Os gatos nus passeiam sobre os telhados sujos – Contos
1999 – Galeria dos Maus – Poemas
2002 – O Prédio/Contos urbanos
2007 – No Último Desejo a Carne é Fria – Coletânea com outros autores (Olga Savary, Israel Guttemberg, Carlos Correa).
2009-Os Cinco Felizes (contos)