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terça-feira, 26 de novembro de 2013

Há pós
Na casa fechada
Círculo de poeiras
Poesias empoleiradas
Na garganta da gaiola

Pus
A mesa

Há um mês
Não chove
No ar seco
Das telhas

Um gato inventa um circo
Gira
Pula
E olha da claraboia a lua

há terra
do arame farpado para trás
o sol se põe
como os ovos

a tarde é quase uma clareira
fede a pato molhado

agasalhados
em seus ninhos

a noite impõe
estrelas
flores
e silêncios

nada pode mais que os grilos

no grito áspero das manhãs
o pássaro
a corda
e o vento
balançam o dia.  


Josette lassance-26/11/2013

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

colagem, 1999
havia antes um silêncio. como um pedalar sobre os trópicos vazios do mundo. a fumaça e o vento batendo nos ossos do rosto. o desbravar a beleza selvagem da paisagem real.  JL, 2010.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Poema de Charles Bukowski

“Não sinta pena de mim
sou um competente e
satisfeito ser humano

sinta pena de outros
que
irritados
reclamam

que constantemente
rearranjam suas
vidas
como fazem
com as mobílias

falseando atitudes
e
amigos

a confusão deles é constante

e ela atingirá
todos aqueles que eles encostarem

com eles, cuidado:
uma de suas palavras
favoritas
é “amor”

e cuidado com aqueles
que apenas tomam
instruções de seu
senhor

por eles terem falhado
completamente em suas vidas
não sinta pena de mim porque sou um solitário

e nos mais terríveis momentos
o humor é meu companheiro inseparável

sou um cachorro andando para trás
sou um banjo quebrado

sou um fio de telefone cortado
que liga Toledo e Ohio

sou apenas um homem 
jantando nesta noite 
de setembro".




   

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

a morte das máquinas



Zulma noite e dia tece. Corta. Grampeia. Estica. Passa. Um alvoroço. No quintal sua cadela prenhe anda de um lado para o outro, imprensada entre o muro e a parede da cozinha. Zulma é mistura. Italiano. Negro e índio. Zulma tem 73 anos. Operou de catarata faz seis meses. Conta cada história! Que um dia viajou e foi entregue por sua mãe para seu padrinho porque a mãe não podia sustentá-la.  (pelo que me pareceu ela não teve afagos). Então aprendeu a costurar e a cozinhar. Cozinha como ninguém. Costura além de suas possibilidades. Mas cria muito bem várias calcinhas com bichinhos para vender. Seu filho único, 49 anos, sempre usa cuecas de bichinhos.

Ela faz costura de rede, meia, vestido, calça comprida, pijama. Um dia, daqueles inspiradores dias, fez um pijama para uma mocinha e se inspirou tanto que a mocinha passou a usar para ir para a faculdade. Uma daquelas calças compridas frouxas quadriculadas vermelhas que dá uma vontade de não tirar do corpo de tão macia que é. 

Então: O médico diz a ela que ela não pode mais costurar, nem lavar, nem passar, nem cozinhar. O médico quer que ela morra (de tédio talvez). Porque ela tem tal nódulo na aorta que a incomoda com uma dor nas costas. Ela pede então socorro ao filho que mora com ela e que por isso também fica envolvida em suas tramas em histórias imaginárias e reais.

Quando vou lá almoçar em algum domingo (esparsamente vou). Ela me enche de mimos e de comida boa. Eu entro nesse espaço de suas criações. Às vezes adormeço ouvindo tantos causos. (ou pela comida que é um embalo para o sono em dias quentes).

Um dia desses ela me disse que havia uma casa onde ela morou durante três meses e que a casa era mal assombrada. Atiravam pedras durante a noite e que havia uma senhora vizinha que conversava com uma árvore de tamarindo.

Vocês sabem o que é tamarindo? Aqui no norte chamam de “tamarino”, mas o nome certo, segundo a Wikipédia é tamarindo:  Tamarindo vem do árabe – em português tâmara da Índia) através do latim medieval tamarindos. Mas parece que tem suas origens nas savanas africanas, embora seja cultivado na Índia. No Brasil é bastante consumido no norte e no nordeste. As folhas são compostas e sensíveis (fecham por ação do frio), flores hermafroditas amarelas ou levemente avermelhadas (com estrias rosadas ou roxas) que se reúnem em pequenos cachos.


Talvez por isso essa senhora vizinha dessa casa onde Zulma morou pense que a árvore é seu pai, de tanta sensibilidade que tem a árvore com a possibilidade de tecer diálogos frequentes (a solidão faz tecer raízes verdadeiras entre pessoas, animais e plantas).
Zulma passou então apenas três meses na casa,  porque mesmo não se mora mais do que isso numa casa mal assombrada. Então de mala e cuia se despediram da casa com um olhar machucado, vendo de longe a vizinha amalucada conversando com seu “pai”.

Zulma prepara agora uma colcha de retalhos. Ela coleta pedaços de cada roupa costurada e faz um grande amontoado de tecidos coloridos. Aposentada. Jamais vai desligar suas máquinas porque acredita que a verdadeira natureza da morte esteja em deixar o que faz com amor para entrar em estado vegetativo.

Zulma continua fiando. Tecendo. Cozinhando. Até hoje. Até agora.

Josette lassance
23/08/2013






quinta-feira, 4 de abril de 2013

O Livro Galeria dos Maus
publicado em dezembro de 1999


























contracapa Galeria dos Maus, lançado em 1999


terça-feira, 12 de março de 2013





PARA REFLETIR...

"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em auto sacrifício; então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada".

Ayn Rand

sábado, 16 de fevereiro de 2013


LUTO
 


LUTO é o que escuta. Seria a força da tragédia diante do hedonismo de nossa sociedade? Vivemos em uma época em que não queremos e não podemos ver/sentir a dor do outro, pois urge sobrevivermos a cada dia. Aí, de repente, acordamos e somos colocados diante da tragédia do outro, da tragédia capaz de romper a camada de insensibilidade que colocamos entre nós e o mundo que nos cerca. Em um tempo em que se permitir sentir a própria dor é algo a ser trabalhado, como sentir a dor do outro? Uma racionalização se faz necessária! Imagens das tragédias coletivas são repetidas na mídia até que percam a potência de contágio e, neste processo, os fatos se diluem nas múltiplas narrativas encontradas. Por baixo delas ecoa o pedido: reconduzam-me a minha, a nossa zona de conforto. Digam-me, por favor, o que sentir?!


Quando é difícil até falar, como calar? Por LUTO a sociedade traduz sua solidariedade à morte. Em um âmbito mais micropolítico a dor da perda de afetos que nos são caros irrompe e, independente de nossa permissão, o LUTO, tão somente, instala-se. Vestir a cor negra foi um código social usado durante o período convencional de luto. Creio que na ausência dele, o tempo de elaboração da perda se tornou algo mais particularizado. Para o bem ou para o mal, ao gosto de nossa atual sociedade as pessoas em torno estão liberadas do convívio com a dor do outro. Refiro-me a esta que outrora era imposta pela imagem de pessoas com roupas negras. Contudo, para além das aparências e convenções, trata-se sempre de uma elaboração subjetiva, cada um a seu tempo e com sua dor.


Ainda hoje li que não se supera uma perda, aprendemos a conviver com ela e seguir em frente. Concordo com esta afirmação. Tenho visto pais que ao perderem seus filhos em tragédias dão um sentido político ao fato e, assim, conseguem ir em frente. Para os efetivamente mais distantes da tragédia, na emergência, resta ajudar com os meios disponíveis e, em um tempo mais alargado, corrigir as possíveis distorções de sentido e reconduzir as ações e discussões.


Assim, em termos mais macropolíticos, permanece que apenas os afetos sentidos nos corpos possuem força de contágio. Existe muito trabalho a ser feito. Em nosso país perdemos diariamente muitas vidas.


 boate Kiss - Santa Maria -RS

 Luiza Helena Guimarães é

artista multimídia, mestre em comunicação e cultura -ufrj- doutora em psicologia clínica- pucsp.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013








Ao mundo: o que se precisa – e seus pertences – sobre Martine e Philo em sua exposição Rastros Insulares.– 

Existe uma forma adocicada de um tornar-se a alegria dos bons frutos: a água – a pedra – a árvore, o abrigo, o alimento. O que mais seria essencial? Quando o ser humano destrói uma nascente, como fonte de vida, ele esvazia seu valor.


Como se desconhecesse a inquietude planetária de um fluxo, ele vive dos excessos, porque a natureza da sobrevivência é a natureza do homem refletida numa paisagem dominante do seu ego, da ilha que se desfez no mapa: - do transbordamento - : ao destino da humanidade. Que lugar o homem procura para viver?



Quando algo não é natural, tende a morrer muito cedo. Falo da força da natureza e toda a sua verdade. Precisamos descobrir o que o planeta tem a nos dizer, tão encoberto pela sobrevivência.


Imersos na alma de Martine e Philo, dois lugares entrelaçados por uma linha, duas histórias fecundadas na mesma memória, trouxeram seus próprios braços para acolher o universo: o desenhar as pessoas em dois continentes, os ruídos das galinhas, a voz das crianças, as folhas secas caídas, os pertences do mar, os desenhos sem rosto, o ouro do casco da tartaruga, todos dentro do coração (unindo seus laços). Em ambos, o mesmo sentido das pegadas. A mesma simplicidade. O mesmo equador, na mesma língua portuguesa, aos retratos de família, da África à América, aos olhos do mar.


Não há fronteiras quando se acolhe um lugar.


E se o fim deste planeta está próximo, o que na verdade ainda o faz movê-lo?


O tempo não irá atrás de alguém que não busca o resistir da vida, tampouco, nenhuma riqueza justifica a fome da humanidade.

Precisamos de um sonho mais harmonioso. Ao mundo: o que se precisa – e seus pertences: apenas a humildade como uma forma de se agradecer pela vida.


Josette L.