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terça-feira, 9 de agosto de 2011

ontem - quase onze da manhã eu atravessava a praça perto de uma estátua apagada - um colégio centenário - e uma esquina onde passam milhares de transeuntes por dia - afiam-se facas - plastificam-se documentos - fotografias 3 x 4 na hora.

ouvi uma senhora - setenta anos - choramingando - por andar - com dores nos olhos doentes - olhar de quem sente doer até o andar - uma sombrinha aberta pela filha tentando consolá-la - sem resultados - a idosa chorava - parei na esquina para atravessar o sinal e retornei - não me contive - a dor de viver era mais próxima - eu sabia o que se passava - a miséria material - a casa que ela julgava estar caindo na cabeça - a filha única que a ajudava a subir a rua - o pano que ela enxugava os olhos doentes - perguntei o que estava acontecendo - será que meu olhar ajudaria? - Meus óculos de grau me afastavam do problema - então uma outra mulher se aproximou e ela a abraçou tomando conta da carência - de onde viria esse descumprimento do afeto - a mulher necessitava - de afeto - segurança - que eu não poderia - ou poderia? afinal meus compromissos do dia estavam sendo combrados a preço de ouro - deixei-a com a mulher transeunte que a indagava se a idosa já havia ido a Igreja universal. E com a filha impotente aos apelos misteriosos da mãe.

segui em frente por não conseguir ajudá-la - a humanidade cresce sem afeto - desprotegida das noite mais úmidas da terra - escrevo este texto - pelo meio do caminho - aos pedaços - e peço - cuidem de seus irmãos - com ternura - cuidem das hortas - cuidem do silêncio - cuidem de seus filhos.

mais tarde um anjo varrerá as noites - limpará as estrelas - assim mais um dia o sol nascerá - e nada vai impedir - por isso cuidem-se - cuidem-se!

tarde de terça feira, 09 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por quê não existe mais a floresta onde caminhei e respirei com profundidade minha infância feliz? A tarde caía e uma eletricidade cósmica carregava sombras, folhas e o aroma negro da escuridão da mata, cheiro selvagem de seiva e os açaizeiros cobriam os quintais. A terra havia sido, feita pelas origens, trazia o poro aberto das frutas e das flores. Então os carros de boi misturavam esterco pelas estradas onde o tabaco, a mandioca, o café eram plantados. Dali se estendiam lugares e conversas, risadas  e ecos.

Meu retorno após longos anos de exílio:  Uma lágrima seca e dura saía de mim, os anos levaram pessoas do clâ, a memória abrindo-se e trazendo os dias, a maromba, o café na calçada quente, o suor escorrendo no rosto de Chiquinho Piquiá, as panelas de D. Vinoca, o talho do jirau. Eu olhando para a casa vazia.

Dominguinho sorri ao me ver. Saudades. Venho reencontrar-me. Poucos os escolhidos por meu coração de palha, que ainda teima em queimar seus últimos fósforos. Venho em busca de algo que perdi.  A inocência daqueles dias ensolarados entre as varandas, as redes e minhas leituras diárias, José de Alencar, Machado de Assis.

Estou dura. Quase nada me emociona, após tantos anos pela cidade grande. O interior hospedou a casca das cidades e rompeu suas fronteiras. As linhas do perigo estão expostas. Nada mais de "bandeirinhas"   nas noites de lua cheia, Dominguinhos abre um sorriso. Cinquenta e um anos de idade. Eu? 48. Bem vividos. Bem crescidos e talvez embrutecidos pela humanidade que tenho encontrado ultimamente. Nenhuma visão romântica. Então olho para o céu após dois dias de exílio: - Estrelas. Tantas que nem sei contá-las.
O que me diferencia da cidade, essa distância incorreta entre todas elas. Tantas luzes confusas. Aqui ainda posso assistir ao Cruzeiro do Sul ou Três Marias. Quem sabe?

A metade casa de palha de Dominguinho resiste. Linda. Com lamparinas acesas e um tosco banco no chão batido de barro. Meu irmão que não tive.

Prometo voltar. Dominguinho me promete uma visita. E saio dali para meus pensamentos. Vamos caminhando e buscamos a rua. Encontro um marco em frente a casa azul, algo que enterraram ali, ainda faz parte do esqueleto do carro de boi que seu Chiquinho guardava na maromba. Ainda existe a árvore que D. Vinoca plantou. O telhado ainda é o mesmo.

Fotografo o marco. Última recordação. Talvez única. Mais ainda, minha mente fragmenta paisagens guardadas no corpo. Moldadas no coração.

Revisito o rio onde passava, onde aprendi a nadar:

Rio grande

Rio largo

Rio sonho, passado.

Aos queridos amigos,
Dominguinho, Chiquinho e Vinoca.

Um abraço debaixo do baú.

Josette.





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

cabe a paisagem dentro do corpo -

Aldeias

um toque de intimidade - o passado - meu revisitar as aldeias da infância em que passava as férias - 310 km nos afastava da capital. Traços da Amazônia exuberante. Viseu. Limondeua - lugar onde os limões cabiam em excesso nos paneiros. D. Vinoca e Seu Chiquinho Piquiá, in memorian. Julho, 2011.