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terça-feira, 22 de novembro de 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


p á s s a r o s     s e c o s


o    n i n h o    d e    m e t a l


o v o s    d e    a c r í l i c o:   n a s c e m   c u c o s

terça-feira, 1 de novembro de 2011


Viajo dia 09 para Ouro Preto onde irei participar do Fórum das Letras de 2011, às 17 horas. http://www.forumdasletras.ufop.br/autores.php e http://www.forumdasletras.ufop.br/


Minha participação será na mesa em que serão abordadas as CARTAS PERTO DO CORAÇÃO (das correspondências trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, entre 1946 e 1969), onde farão uma abordagem da obra de Josette Lassance e Alícia Duarte, poeta mineira, ambas no contexto da poética de Clarice Lispector.



O Fórum das Letras (organizado por Guiomar de Grammont; Escritora e Diretora da UFOP) é um encontro de escritores, críticos e interessados em literatura em geral, que a Universidade Federal de Ouro Preto realizará nos primeiros dias de novembro. Este ano, tendo como tema geral do Evento "Memória e Resistência".




Durante a ocasião, lançarei CRÔNICAS, SONHOS E CAFÉS, publicado pela Editora CROMOS, 2011.



sexta-feira, 14 de outubro de 2011

MATINTA PERERA

(texto extraído do Livro Crônicas, sonhos & cafés, Josette Lassance,  Ed. Cromos, 2011) 

Alguém roía uma fruta embaixo de uma árvore. Um galpão coberto de zinco e um terreno baldio logo ao lado acinzentavam esse pedaço de paisagem. Dentro do galpão alguns homens descansavam em cima de jornais, no terreno baldio algumas ameixeiras mexiam suas folhas, era quase uma hora da tarde, o sol rachava a terra, algumas bicicletas passavam e levantavam a poeira da rua.

Na esquina um posto de gasolina enferrujado enchia os tanques dos caminhões com a carroceria carregada de mercadorias; melado, carne de porco salgada, café, tabaco. Dois homens na boleia que acompanhavam o motorista tinham músculos de pedra.

De alguns quintais ouviam-se algazarras de meninos jogando bola ou gritando com um pedaço de pau para quem conseguiria levantar mais alto e arrematar uma manga verde. As sombras espalhavam-se até as cercas onde as roupas secavam.

Nenhum ruído sórdido, apenas de vida passando devagar nos terrenos soltos, onde as galinhas ciscavam insetos para seus filhotes e peruas velhas chocavam seus ovos em ninhos de paneiros.

De repente, uma mulher velha saiu pela porta de sua casa e caminhou ate a rua, olhou para os dois lados e seguiu numa única direção. Ninguém percebeu sua presença. Silenciosamente arrastava seus tamancos enquanto seu vestido de flores voava mostrando as anáguas brancas; era uma mulherzinha magra, veias e ossos, pequena e pescoço curvado para o chão, os braços compridos e um semblante puxado, um par de alianças no dedo esquerdo, caminhava e caminhava. Olhava para trás observando se não estava sendo seguida.

O homem do posto sentou-se numa poltrona velha de Kombi próxima a calçada. Todos estavam distraídos. Não havia testemunhas. A mulher velha penetrou num caminho escuro onde árvores cresciam tortas e enegreciam-se.    Seus cabelos grossos caíam até as suas últimas vértebras, embranquecidos e cheio de sebo. Pronunciou algumas palavras e em seguida apareceu uma fonte de água pura. Logo acima, uma luz como um lampião a gás caiu em sua direção. Uma chama densa em forma de cone fixou-se intensamente na bruma de carne que aparecia. A mulher despiu-se e entrou na água. As rugas instantaneamente sumiram e uma nova pele surgia dentro da pele velha, como uma cobra; a mulher rigidamente olhava para seus reflexos, branca, magra, com seus pelos negros reluzindo.

Em seu dialeto repetiu as palavras, então um homem ruivo de cabelos ralos e barba comprida aproximou-se da fonte. Em sua orelha uma argola de prata refletia suas patas traseiras, metade homem, metade animal, sujo de muco das plantas apodrecidas, fétido de suores, lambeu-lhe os seios, depois o corpo e copulou até a morte.

A mulher levantou-se e banhou-se. O sêmen espalhou-se. Vestiu-se do mesmo vestido de flores e caminhou até o portal.

A pele voltou a enrugar-se, as veias azuis retornaram às suas mãos. Caminhou lentamente de volta pela noite seca.

A mulher atravessou o luar do pequeno vilarejo. Deu um grande sorriso de quem desconhece a rotina do lugar, salvo o latido dos cães alvoroçados pela súbita ventania. Abriu a porta de sua choupana e entrou.

O vento seco da noite penetrou em cada jardim, onde as libélulas voavam silenciosas.

Um aroma de flores noturnas misturou-se a um frisson de escárnio entre ruídos baldios de veneno. Com as sopas servidas nas mesas das casas a aldeia jantava. Nenhuma palavra surgiu, nenhum som ou algo que pudesse quebrar a rotina misteriosa de uma metamorfose. A madrugada cobriu a lua.









[1] Personagem do folclore da região norte do Brasil. Fonte: Wikipédia

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Conto Extraído do livro: “No último desejo a carne é fria”, 2006, de Josette Lassance, Olga Savary, Israel Gutemberg e Carlos Correia Santos.



CIDADE-FANTASMA (Josette Lassance)

Ela morava numa cidade em que se sentia presa, como o galo de madeira em cima dos telhados, sentia-se presa por ignorarem o verdadeiro sentido de sua existência, para eles, representava uma ameaça. A cidade tinha algo mais que três mil habitantes, e nenhum deles era importante para ela, não eram porque não podiam ser, pareciam grosseiros caçadores de filhotes de foca. Um dia ela decidiu partir e nunca mais voltar, saiu numa manhã de domingo, num total silêncio, e adentrou no bosque...



Os fantasmas são ilícitos por muitas razões, não gostam de ser revisitados como torturadores; mas voltam, voltam sempre como torturadores, ilícitos ou não, nunca se sabe como sobrevivem, por isso voltam.



Ela se viu viva, muito mais do que se pensava, se viu ali, não como um ser morto, mas um presente a ter que caminhar agora em busca de uma satisfação contínua. Cravou as unhas na primeira penumbra, abriu bem os olhos, escancarou a sua boca para sentir o seu hálito, hálito pesado como a língua presa de um sino com zinabre.



Colocou seu primeiro passo no quadrado do chão, seu sapato tinha uma lança nas extremidades, havia uma pedra polida, gasta de andar pelo duro chão do mundo. Como um cego toca nas paredes ela se moveu para seu caminho, como um morcego na luz, deixando para trás a cidade entorpecida e seus obstáculos – luzes néons nas noites mal dormidas, o som se propagando e ecoando de parede em parede, como se todos afirmassem a mesma sentença, deslizassem seu senso crítico. Nesta cidade, não, eu não me vingaria das pessoas, mas as deixaria a sós com seus venenos. Estou partindo por inteiro, sem essa parte que ficou para trás com as feridas vivas. Sinto-me indiferente ao cortar esse cordão.



Atravessei a ponte – o esmo depois de si atira-se ao contrário, onde as coisas caem no acaso. Ao atravessá-la olhei para as pedras do fundo do rio; estavam brancas por cima e meladas de lodo por baixo – são pedras finas, gastas e parecem eternamente não se deixar mover pela correnteza – vão sumir de tão gastas, se misturarão ao limo e serão comidas pelos peixes mais famintos.



Em cima, a água quase transparente passava, apenas passava e passava...Ergui-me mais uma vez com um certo orgulho nostálgico, pus-me a cumprir a missão: chegar a algum lugar que me desconhecesse por completo e entraria na nudez de uma nova dimensão. Nua dos objetos que se propagavam no passado, a deixar cair o pó sobre o telhado, o fogão coberto, as panelas penduradas, os copos embrulhados nos jornais dentro de um baú – envolvidos no aroma do quarto amarrado por um barbante virgem – um nó forte como um machado que há de matar lenha por toda a vida. Tudo para que alguém os encontrasse com as cartas junto a eles amordaçadas, sem dentes em carne viva – a cama desfeita, a mesa como se esperasse pelo jantar não servido, as portas encostadas. Fui. O medo me atravessava as costelas. Mas precisava ir. Necessitava ir. Seria um domingo pela manhã. Manhã enxuta de sol com uma silhueta de um galo em cima das casas velhas. Depois a igreja, o sino, a cruz, o osso dos cães sem dono. Deixei para trás a imaginária cidade onde convivi com pessoas de carne, que agora dormiam.



Depois que passei da ponte, o longo peso se desprendeu do meu corpo como um fracto de um espectro, e à distância que se consumia, o espectro se desintegrava como a caveira de um pássaro sobre a chuva fina de uma tarde. Por onde passaria não me deixaria ficar, aniquilaria toda a força do mundo que me fosse contrária, sem nenhuma pressa, do que discordo ao longo do percurso, passaria por cima como o vento, não deveria senão por amor próprio, voltar e procurar rastros, tampouco compaixão dos que torturam sem verdades.



De fato se existo, já não tenho mais a casa, o passado moído entre as cartas sobre os corpos dos copos pelo resto da noite, pelo resto da vida em que dormi pela última vez naquela cama.



Olhei para trás e me vi sob um olho paralelo – distância em que minha infância prometeu-me o íntimo do infinito. Refazer-se é controvérsia, requer a habilidade do retorno até o desfazer-se, como desmistificar a relevante imagem do fantasma. Refazer-se da casa escondida entre paredes e miragens. Mesmo que se oculte a casa entre as sombrias folhas compridas e largas das árvores seculares – da casa escondida entre mim mesma e as paredes a desfazerem-se entre as chamas de um fogo negro – as cinzas vivem entre realidades paralelas, vivem na varanda, vivem nos espelhos, vivem nos sonhos de quem disputa a realidade.



Depois da ponte, eu ainda mais viva molhando as plantas na varanda – como se não me existisse a partida. O sino me denuncia. Todos acordam com olhares adestrados. O badalar e ninguém. O meu silêncio – a silhueta paralisada como o galo de madeira morto. Como não existir para todos ali. Perceberam-me mais ainda do que minha presença.



A ausência é mais sentida. Cuida-se mais dela. Acendem-se velas, cobrem-na de flores. Os simulacros as substituem como as idéias.



Fui. Com a distância casta em minha companhia. O saco com o destino – as parcas roupas de algodão cru para o sol não me ferir. Castanhas, água e pães. Pelo caminho a dura pele das flores são esperanças de não coexistirem como flores falsas entre a virtualidade e o mundo antigo, com um aroma desconexo com brilho de pixel. A dura pele das flores é mais arrebatadora porque minimiza a dor real, a dura pele das flores alaranjadas são como bálsamos para minha mente ferida. As flores abrem as paisagens pesadas com luz, minha passagem entre elas é feita com um silêncio incomum, o silêncio do bosque.



Parei de cansaço. O suor me aniquilava. O barulho da água me chamava. O bosque já quase sombrio deixava vazar os últimos raios de sol entre seus caules – a luz entrava pelo rosto transparente das folhas e desaguava na água límpida. O cansaço era uma canção úmida. O despir-me vinha de mim feito um ritual de quem se liberta da confortável casa vazia a buscar sentir-se livre sem cobertas de nenhum tecido, sem os telhados e as madeiras do caibro, sem as escápulas de ferro das redes, sem as cartas com palavras ardentes, sem qualquer olhar primitivo daquelas pessoas. Lavei-me de dentro para fora, seu toque me alimentava. O céu quase escuro, a ínfima luz fosca entrava em mim. Um corpo que pedia o agasalho. Juntei gravetos e o fogo da fogueira aqueceu-me. Os grãos e as castanhas foram meu primeiro alimento sólido.



A noite lenta se desfaz na mais profunda noite e retorna com seus murmúrios e sons. Dormimos como se morrêssemos e desaparecêssemos nessa penumbra mágica. Uma noite silvestre. Por ainda resistir e estar na boca de todos, em suas imaginações, em seus sonhos, minha existência ainda os incomodava, o alvo de suas motivações. A cidade anacrônica e triste. Durmo e ainda os sinto, calados como caçadores. Meu sonho é uma descontinuidade, para que não me sirva de um desejo, meu sonho sonoriza uma vingança. O medo é contrariamente a força motriz da sobrevivência. A mudança do ritmo cardíaco, o desespero em metamorfose. Não quero substituí-lo pela omissão da paz. Emitir-me seria como retornar àquela cidade enclausurada pelo julgamento de sua ignorância.



Acordar lentamente e despertar com pássaros. Quem seriam? Eram feitos de asas e suas vozes de flores. Depois que passei por aquela ponte, nada mais me seguraria, nem mesmo esses ruídos de paraíso. Precisava ir em frente.



Lembro-me da cerca de meu quintal, daquele homem quase de cócoras me observando. Observar o imprevisível sobre alguém sentindo apenas os levitar das asas dos pequenos pássaros, o que soaria de estranho aos seus olhos? Levantei-me e preparei-me para mais uma jornada. Comi frutas das árvores. Aquele homem, não devo temê-lo, é mais um rosto perdido na fresta de uma cerca derrubada por minhas lembranças.



Voltei ao caminho – percorri quatro, cinco, seis, sete, oito horas, até meus pés não agüentarem mais. Até avistar uma cabana. Um abrigo para mais uma noite. A noite que não era a mesma, nem me parecia triste, não me parecia loucura, precisava de mais tempo. Arrebatador abrir mão de uma história, de um passado, nascer de novo para longe, não mais voltar para o inadequado, não estar simultaneamente presente sob dois aspectos – real e imaginário.



Em meu imaginário via-me agora numa imensa multidão, entre tantas explosões que pediam palavras cruzadas em minha cabeça, um derrame de soluções – passado, presente, futuro embrulhados num saco gigantesco de sentimentos – extrema confusão formada por uma teia incontrolada de um labirinto elíptico. E como deveria sair de lá, dessa multidão em que me envolvera, e que necessitava estar lá, mas aparentemente não estava, andara controladamente num trajeto entre imagens costuradas por setas em meu passeio secreto entre ninguém e as entranhas de uma multidão estranha.



Em meu real encontrava-me sozinha numa cabana vazia e sem meus pertences passados, nem a cozinha, nem a insônia, nem a calúnia.



Para onde deveria existir, ainda não sabia, mas desencantar-me mais com pessoas, jamais. Alguma coisa haveria de existir de bom neste planeta, algo além daquelas paredes brutas e daqueles curiosos olhares velhos. Ainda em alguma alma de uma cidade, onde meu olhar por inteiro cruzaria sua primeira avenida e me faria reconstruir, com um olhar vendado para não mais retornar. Retornos são como sinais vivos nos acenando, setas nos prostituindo, sangue nas mãos de caçadores. A caça, sob a pequena pele da cabana frágil, tentando adivinhar o futuro, tecendo memorizações ainda não acontecidas, fluindo de energias para encontrar-se com sua solidão de uma maneira firme, com a felicidade nas mãos, livre, para escolher a vida, mesmo que o passado, ilícito ou não deseje a ter, com seu hálito de sino, com sua silhueta de galo preso no teto de uma torre.



Sem que se encerre essa memória, ela saiu da cabana e cravou as unhas na primeira luz, abriu bem os olhos e colocou seus primeiros passos do novo dia no quadrado do chão, seu sapato tinha uma lança, gasta de tanto andar pelo duro chão do mundo. Partindo por inteiro, com muita coragem de não desistir para chegar a algum lugar que desconhecesse por completo.



... avistou uma cidade muito, muito, muito longe dali e foi buscá-la...após atravessar o bosque inteiro.



O primeiro homem apontou para o segundo, o segundo para a primeira mulher, a primeira mulher para o terceiro homem, o terceiro homem para a segunda mulher, a segunda mulher para o milésimo terceiro homem, o milésimo terceiro homem para infinitamente não conseguir mais contar, ela estava numa nova cidade, com infinitos homens e mulheres. Deslumbrada com as possibilidades e feliz.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

ontem - quase onze da manhã eu atravessava a praça perto de uma estátua apagada - um colégio centenário - e uma esquina onde passam milhares de transeuntes por dia - afiam-se facas - plastificam-se documentos - fotografias 3 x 4 na hora.

ouvi uma senhora - setenta anos - choramingando - por andar - com dores nos olhos doentes - olhar de quem sente doer até o andar - uma sombrinha aberta pela filha tentando consolá-la - sem resultados - a idosa chorava - parei na esquina para atravessar o sinal e retornei - não me contive - a dor de viver era mais próxima - eu sabia o que se passava - a miséria material - a casa que ela julgava estar caindo na cabeça - a filha única que a ajudava a subir a rua - o pano que ela enxugava os olhos doentes - perguntei o que estava acontecendo - será que meu olhar ajudaria? - Meus óculos de grau me afastavam do problema - então uma outra mulher se aproximou e ela a abraçou tomando conta da carência - de onde viria esse descumprimento do afeto - a mulher necessitava - de afeto - segurança - que eu não poderia - ou poderia? afinal meus compromissos do dia estavam sendo combrados a preço de ouro - deixei-a com a mulher transeunte que a indagava se a idosa já havia ido a Igreja universal. E com a filha impotente aos apelos misteriosos da mãe.

segui em frente por não conseguir ajudá-la - a humanidade cresce sem afeto - desprotegida das noite mais úmidas da terra - escrevo este texto - pelo meio do caminho - aos pedaços - e peço - cuidem de seus irmãos - com ternura - cuidem das hortas - cuidem do silêncio - cuidem de seus filhos.

mais tarde um anjo varrerá as noites - limpará as estrelas - assim mais um dia o sol nascerá - e nada vai impedir - por isso cuidem-se - cuidem-se!

tarde de terça feira, 09 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Por quê não existe mais a floresta onde caminhei e respirei com profundidade minha infância feliz? A tarde caía e uma eletricidade cósmica carregava sombras, folhas e o aroma negro da escuridão da mata, cheiro selvagem de seiva e os açaizeiros cobriam os quintais. A terra havia sido, feita pelas origens, trazia o poro aberto das frutas e das flores. Então os carros de boi misturavam esterco pelas estradas onde o tabaco, a mandioca, o café eram plantados. Dali se estendiam lugares e conversas, risadas  e ecos.

Meu retorno após longos anos de exílio:  Uma lágrima seca e dura saía de mim, os anos levaram pessoas do clâ, a memória abrindo-se e trazendo os dias, a maromba, o café na calçada quente, o suor escorrendo no rosto de Chiquinho Piquiá, as panelas de D. Vinoca, o talho do jirau. Eu olhando para a casa vazia.

Dominguinho sorri ao me ver. Saudades. Venho reencontrar-me. Poucos os escolhidos por meu coração de palha, que ainda teima em queimar seus últimos fósforos. Venho em busca de algo que perdi.  A inocência daqueles dias ensolarados entre as varandas, as redes e minhas leituras diárias, José de Alencar, Machado de Assis.

Estou dura. Quase nada me emociona, após tantos anos pela cidade grande. O interior hospedou a casca das cidades e rompeu suas fronteiras. As linhas do perigo estão expostas. Nada mais de "bandeirinhas"   nas noites de lua cheia, Dominguinhos abre um sorriso. Cinquenta e um anos de idade. Eu? 48. Bem vividos. Bem crescidos e talvez embrutecidos pela humanidade que tenho encontrado ultimamente. Nenhuma visão romântica. Então olho para o céu após dois dias de exílio: - Estrelas. Tantas que nem sei contá-las.
O que me diferencia da cidade, essa distância incorreta entre todas elas. Tantas luzes confusas. Aqui ainda posso assistir ao Cruzeiro do Sul ou Três Marias. Quem sabe?

A metade casa de palha de Dominguinho resiste. Linda. Com lamparinas acesas e um tosco banco no chão batido de barro. Meu irmão que não tive.

Prometo voltar. Dominguinho me promete uma visita. E saio dali para meus pensamentos. Vamos caminhando e buscamos a rua. Encontro um marco em frente a casa azul, algo que enterraram ali, ainda faz parte do esqueleto do carro de boi que seu Chiquinho guardava na maromba. Ainda existe a árvore que D. Vinoca plantou. O telhado ainda é o mesmo.

Fotografo o marco. Última recordação. Talvez única. Mais ainda, minha mente fragmenta paisagens guardadas no corpo. Moldadas no coração.

Revisito o rio onde passava, onde aprendi a nadar:

Rio grande

Rio largo

Rio sonho, passado.

Aos queridos amigos,
Dominguinho, Chiquinho e Vinoca.

Um abraço debaixo do baú.

Josette.





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

cabe a paisagem dentro do corpo -

Aldeias

um toque de intimidade - o passado - meu revisitar as aldeias da infância em que passava as férias - 310 km nos afastava da capital. Traços da Amazônia exuberante. Viseu. Limondeua - lugar onde os limões cabiam em excesso nos paneiros. D. Vinoca e Seu Chiquinho Piquiá, in memorian. Julho, 2011.

sexta-feira, 6 de maio de 2011






Hai cai (abril/2011)

Cascas de folhas secas e lascas de canela



Rastros felizes do dia


Sentados nas janelas

quarta-feira, 23 de março de 2011

enquanto sais de mim, a cidade canta
vaidades e sorrisos invadem os cortejos
o calor da vida se aconchega na página vazia do e-mail.




quinta-feira, 17 de março de 2011

o futuro do planeta ou planeta sem futuro. Josette Lassance, 2009




Tempos dispersos que poderiam ser modernos, mas apenas dispersos, algo mais que novidades, o tempo é o senhor de um destino fragmentado, cheio de atos falhos, atos políticos e partidos. Esse tempo efêmero, intenso e irrisório faz lembrar o casulo em configuração com a amada carne do processo da vida, eis que vincula o ato do existir em si, a metamorfose de quase acrílico que a ronda, ou invólucro de luxo ou lixo, invólucro que cobre de fina pele o próximo ato do homem, o suicídio das pequenas porções, esse mesmo tempo assim definido ou indefinido pelas pequenas frações de felicidade ou intensa dor, a camuflagem de suas máscaras que fazem o nascimento do homem ser algo ambíguo e fiel à sua intrínseca natureza: a liberdade de uma borboleta de plástico azul a mimetizar-se num céu traçado pelas cores virtuais de uma simulação, esse simulacro que a mente foi capaz de idealizar como um idealismo psicológico.

Não sei para onde essa borboleta sem sexo irá voar após nascer, ele ou ela sairão desprovidos de tentáculos para uma sobrevivência mais sábia ou sadia, encontrará a ração servida em vasilhas uniformizadas e suas máquinas de fazer sucesso e dinheiro fácil. Nascerão de placentas ricas, dotadas de uma quase inteligência artificial com o futuro vendido em leilões a peso de euros.

Terão um esporão de nascença, para alfinetar sem remorso o seu próximo, o homem novidade possuirá um kit vingança com rituais de sacrifícios esmerados, farão renascer os objetos de tortura da idade média, para compor com maestria sua finalização estética, o homem e seus elementos essenciais, o homem do futuro, impróprio nome que não sabemos caber em qualquer lugar.

As árvores, coitadas e cortadas na nova era das palmeiras, dando para um nada, o deserto vazio de promessas estremecidas, infelizmente não há o que recordar de bom e pacifista nesse futuro já tão perto de nossos pés, estes que caminharão por lugares ainda não visitados. O calor matando aos poucos a todos.

E os pobres, junto aos animais vagarão mais ainda, vivos, pessoas vivas sendo mantidas por algum projeto ideológico onde afirma que pessoas vivas são caras num mercado ainda promissor de votos (ainda que tardiamente) por alguém que necessita dessas pessoas ainda vivas serem criadas quase sem nada.

Os estudos servem para alimentar a prosperidade de uma intelectualidade burra, que não percebe o elementar para as civilizações: Educação. As crianças viram adultos artificialmente alimentados por uma rede infinita de percepções massificadas e não respondem a mais nenhum estímulo do que seja diferenciado como algo alternativo de existência.

Pode-se viver bem ou mal. Seria então uma escolha. O que o futuro nos reserva? Podemos comprar o passe para nossos herdeiros da ignorância?

O que queremos conservar para esse próximo futuro? Porque agora temos consciência de que temos um limite a ser percorrido. Salvar o planeta dessa suposta realidade pode ser uma grande esperança ou a fatalidade pela promessa cumprida de uma fantasia.







segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“ VARAIS EM BELÉM” é uma ação literária que acontecerá no Atelier Cultural "Corredor Polonês” (Tv. General Gurjão, 253) no dia 03 de março às 20 h e na Praça do Carmo dia 04; que os poetas Guilherme Mansur (mineiro de Ouro Preto) e Josette Lassance (paraense de Belém) irão participar.







O título (recorre aos antigos varais que se participava como manifestação marginal das décadas de oitenta na geração mimeógrafo (iniciada na década de setenta para burlar a ditadura), faz um recorte retrô do movimento e literalmente se expõe a poesia no varal, além da performance que Mansur e Josette prometem realizar. Por outro lado “Varais em Belém”, como uma expressão muito utilizada – quando se quer chegar a algum lugar através de uma alameda, se pergunta: - Vara? – Varais em Belém é tudo isso – e como Guilherme não conhece nossa cidade, fizemos um trocadilho com a palavra VARAIS.






Existe um lado lúdico aqui com a palavra, Mansur como tipógrafo e poeta, Josette como iniciante em haicais, enfim, uma mistura e um grande encontro de pessoas que apenas querem levar suas poesias à cidade.






UM POUCO SOBRE OS DOIS:


Guilherme Mansur, escritor e poeta, já assinou cadernos como o “Mais” e “Folhinha”, da Folha de São Paulo. Dirigiu, com alguns cinéfilos de Ouro Preto, o cineclube “Bené da Flauta”, que tinha como proposta exibir filmes do cinema independente. Recentemente lançou nova edição de haikais intitulada “Bahia Baleia” e também o ensaio tipográfico “Espera Poesia”.






Nasceu em Ouro Preto/MG. Tipógrafo e poeta, sua poesia também desdobra-se em instalações, videopoemas e poemas-objetos. Publicou Haicavalígrafos, Bandeiras — Territórios Imaginários, Bené Blake, Barrobeat, Bichos Tipográficos, La Roda, Bamboletras, M O D U L A Ç Ã O (em parceria com Waly Salomão e Luiz Zerbini), Gatimanhas & Felinuras (em parceria com Haroldo de Campos) e Bahia Baleia (haikais).


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( ( ( ( ( ( ( estrelas ) ) ) ) ) ) ) (Guilherme Mansur,






Josette Lassance, escritora, poeta e professora de História e de Arte, publicou seis livros, entre eles: O Prédio (contos, 2002); Galeria dos Maus (poemas, 1999); No Último Desejo a Carne é Fria (em parceria com Olga Savary, Israel Gutemberg e Carlos Correia, 2006) e Os Cinco Felizes, Ed. Pakatatu, 2009).






Escreve para alguns sites e revistas: cultura Pará (Belém); Editora Protexto (Curitiba), Labirinto Literário ; Ver-o-poema; VIVAVAIA (Porto Alegre); Parazerozero, entre outros.






Fez videopoemas (deserto-cão, crema-ação; menupoesia) e um documentário “figurantes urbanos”.






Na tentativa de burlar sua timidez, fez parcerias com diversos poetas em saraus, performances e vídeos, entre eles Olga Savary, Carlos Correia, Luis Carlos França, Alex Hamburguer, Carlos Ferraiuolo, Guilherme Mansur entre outros.






pássaros secos


o ninho de metal


ovos de acrílico: nascem cucos.


(Josette Lassance)











segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DESCARTÁVEL
quero jogar no lixo a rosa que comprei na praia – aquele abajur que sujou de sangue quando cortei o dedo – a bolsa que usei no carnaval – a saia que manchou de esmalte – o chapéu que tem um pontinho branco de mofo – a carcaça do computador que está ultrapassado – as bijuterias desbotadas – os vasilhames de 1, 99 que rasgaram em menos de um mês – os cadernos vencidos, ainda cheios de páginas em branco – as garrafas de vinho – a pulseira de couro que enjoei – os sapatos que enjoei – os vestidos que enjoei – as calças compridas que saíram de moda – quero jogar fora a raquete de matar mosquitos – a sandália de plástico roída – o pente colorido cafona que comprei num impulso de momento – as garrafas de plástico de água mineral – o isopor que tem uma mancha preta de caneta – os ursinhos mofados – os CDs piratas que funcionaram apenas 3 vezes – o agasalho de frio – o telefone sem fio que deu pane na bateria – o liquidificador que enjoei – a geladeira que tem um pingo de ferrugem e meu colchão de ácaros. Para onde isso vai, não me interessa, eu quero é me livrar – por isso jogo tudo no lixo.



Vejo da televisão o cenários das ruas e choro, como eu choro, lagrimo, vejo pessoas morrerem afogadas, sendo levadas pela correnteza, pessoas desabrigadas, peixes morrendo com sacos plásticos na boca, pessoas com dengue hemorrágica, animais com fome, pessoas com fome, muita lama nos noticiários. Por que será que as cidades estão alagando? Seria o fim do mundo? Meu Deus, que absurdo, toda essa gente sofrendo.


 
Ah! Falar nisso, vou ao shopping comprar coisas novas, preciso me distrair. Duas semanas depois ... Estou enjoada: Jogo tudo no lixo!