Total de visualizações de página

segunda-feira, 16 de abril de 2012


Crônica de viagem São Paulo & Rio e
 Rio & São Paulo
       Perto de uma fábrica abandonada, por certo uma fábrica de bonecas: Vejo cabelos. Quase um pouco mais das cinco da tarde – enquanto os navios de carga descansam – as paredes do ônibus vão mudando de cores – há o escurecimento – escutei conversas sobre a máfia chinesa em são Paulo – a lavagem do dinheiro na 25 de março – a mão de obra das Colombianas que costuram 12 horas por dia para ganhar 0, 35 centavos por peça.

Passo por minas velhas – ruínas da cidade não muito antiga – 35 anos atrás feitas por prédios disformes usados e cinzentos – me cubro um pouco mais do frio que se mistura ao ar condicionado.


     Há partes do Rio que não me interessam – tão pouco o hálito de alguém ao lado chupando halls, tudo num aroma tão extremo – fortes aromas – as casas vão ficando triangulares – mais containers com o escrito TEX – China. Aqui recebemos uma espécie de pré-lixo que vem da China Shipping – bugigangas baratas e viciosas sem função – exceto a de virar mais lixo mais tarde, tarde demais – o porto do Rio de Janeiro recebe e logo ao lado um muro de concreto dá origem a uma floresta (?) .

     Ritmo de um mangue forçado a ser, a pertencer naturalmente a um habitat animal que não pode ser vencido pela continuação desse mesmo concreto porque há de romper-se um dia.
      Muro quase interminável de rotinas: a flora e a fauna humana em harmonias. Logo acima uma travessia de pedestres (passarela) com ervas daninhas subindo os tubos de ferro e camelôs expondo suas peças retrôs.
     As grandes pontes são turvas e se confundem com águas acinzentadas que correm como espuma. Parecem estagnadas no espaço que percorrem enquanto o ônibus que eu viajo passa sua lataria azul – as janelas e as cortinas parecem zebras azuis, mas suas poltronas limpas e acolchoadas são finas e não me trazem conforto que eu esperava pelo valor que paguei para viajar 6 horas: 70 reais. O piso vermelho do corredor contrastando com o azul das cadeiras parece um tapete (tapetes-vermelhos que aguardam pessoas ilustres).


     A estrada – árvores plantadas na mesma direção – finas e secas pelo frio – eucaliptos dão um aroma cítrico ao caminho em que todos os carros percorrem em velocidades diferentes. Os passageiros começam a falar ao telefone. Hábito saído há pouco do relógio do tempo – havia antes um silêncio – como velejar pelos trópicos vazios do mundo – ou andar de trem – a fumaça e o vento batendo nos ossos dos rostos entre a presença metafísica de um ritual de caldeiras – máquinas – e o desbravar a beleza selvagem de sua paisagem real.    
     Estranha essa raiz desconexa de palavras ao vento pelo simples tagarelar – indispor o prazer da viagem da leitura da fotografia momentânea e registrada na retina – ou o apagar dos olhos para fugir da morte do campo – tudo se transforma então num costume comunicativo de repetições desnecessárias – retira-se a essência do passeio - do desaparecimento proposital de alguém que quer buscar um alimento novo para seu espírito arraigado com frequência de horários intranquilos disputados pelo correr dos metrôs e ônibus – a correria para todos os lugares impossibilitados por um fluxo fragmentado e interrompido do trânsito.

     Não se consegue mais o isolamento necessário para renovação de energias – nessa inversão – nossa casa – parece ideal – para quem carece de aventuras não o é – não substitui um trajeto pelo selvagem encontro que nos permitimos quando saímos para outros lugares – é diferente uma lembrança in lócus do espírito do corpo em movimento – perfeita harmonia – ver – tocar a terra – a água do mar – a chuva nas montanhas – a seiva das plantas – o calor do equador – o frio do sul – a árvore da montanha – os arbustos do cerrado – a fogueira das praias – o aroma apetitoso de uma tarde que se prolonga num acampamento de um lago – a floresta densa tropical – as alvoradas sem cheiro de combustível – quem viaja quer priorizar suas buscas – e vai além do que vê – como monumento da paisagem.
     Por isso faço as malas com pequenas coisas – livros de bolso – caneta e caderno para esboços de diários de bordo - binóculos – sandálias para trilhas – vestidos para absorver experiências metafóricas com a vida – olhar de grandes profundezas – desde a primeira luz até o anoitecer – tecer unidades desconectadas com seu bem estar interior. Conversar é preciso – ouvir é preciso – olhar é preciso – tudo é tão precioso – que não se deve fazer nada por fazer – nosso presente nos conforta de quaisquer coisas desconfortáveis do passado – e nos abre a mente – como nossas malas interiores – ilusão de que podemos viajar para qualquer lugar do mundo. E o melhor de tudo: Escrever sobre elas.

Do livro – Crônicas, sonhos & cafés/2011/Josette Lassance