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sábado, 16 de fevereiro de 2013


LUTO
 


LUTO é o que escuta. Seria a força da tragédia diante do hedonismo de nossa sociedade? Vivemos em uma época em que não queremos e não podemos ver/sentir a dor do outro, pois urge sobrevivermos a cada dia. Aí, de repente, acordamos e somos colocados diante da tragédia do outro, da tragédia capaz de romper a camada de insensibilidade que colocamos entre nós e o mundo que nos cerca. Em um tempo em que se permitir sentir a própria dor é algo a ser trabalhado, como sentir a dor do outro? Uma racionalização se faz necessária! Imagens das tragédias coletivas são repetidas na mídia até que percam a potência de contágio e, neste processo, os fatos se diluem nas múltiplas narrativas encontradas. Por baixo delas ecoa o pedido: reconduzam-me a minha, a nossa zona de conforto. Digam-me, por favor, o que sentir?!


Quando é difícil até falar, como calar? Por LUTO a sociedade traduz sua solidariedade à morte. Em um âmbito mais micropolítico a dor da perda de afetos que nos são caros irrompe e, independente de nossa permissão, o LUTO, tão somente, instala-se. Vestir a cor negra foi um código social usado durante o período convencional de luto. Creio que na ausência dele, o tempo de elaboração da perda se tornou algo mais particularizado. Para o bem ou para o mal, ao gosto de nossa atual sociedade as pessoas em torno estão liberadas do convívio com a dor do outro. Refiro-me a esta que outrora era imposta pela imagem de pessoas com roupas negras. Contudo, para além das aparências e convenções, trata-se sempre de uma elaboração subjetiva, cada um a seu tempo e com sua dor.


Ainda hoje li que não se supera uma perda, aprendemos a conviver com ela e seguir em frente. Concordo com esta afirmação. Tenho visto pais que ao perderem seus filhos em tragédias dão um sentido político ao fato e, assim, conseguem ir em frente. Para os efetivamente mais distantes da tragédia, na emergência, resta ajudar com os meios disponíveis e, em um tempo mais alargado, corrigir as possíveis distorções de sentido e reconduzir as ações e discussões.


Assim, em termos mais macropolíticos, permanece que apenas os afetos sentidos nos corpos possuem força de contágio. Existe muito trabalho a ser feito. Em nosso país perdemos diariamente muitas vidas.


 boate Kiss - Santa Maria -RS

 Luiza Helena Guimarães é

artista multimídia, mestre em comunicação e cultura -ufrj- doutora em psicologia clínica- pucsp.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013








Ao mundo: o que se precisa – e seus pertences – sobre Martine e Philo em sua exposição Rastros Insulares.– 

Existe uma forma adocicada de um tornar-se a alegria dos bons frutos: a água – a pedra – a árvore, o abrigo, o alimento. O que mais seria essencial? Quando o ser humano destrói uma nascente, como fonte de vida, ele esvazia seu valor.


Como se desconhecesse a inquietude planetária de um fluxo, ele vive dos excessos, porque a natureza da sobrevivência é a natureza do homem refletida numa paisagem dominante do seu ego, da ilha que se desfez no mapa: - do transbordamento - : ao destino da humanidade. Que lugar o homem procura para viver?



Quando algo não é natural, tende a morrer muito cedo. Falo da força da natureza e toda a sua verdade. Precisamos descobrir o que o planeta tem a nos dizer, tão encoberto pela sobrevivência.


Imersos na alma de Martine e Philo, dois lugares entrelaçados por uma linha, duas histórias fecundadas na mesma memória, trouxeram seus próprios braços para acolher o universo: o desenhar as pessoas em dois continentes, os ruídos das galinhas, a voz das crianças, as folhas secas caídas, os pertences do mar, os desenhos sem rosto, o ouro do casco da tartaruga, todos dentro do coração (unindo seus laços). Em ambos, o mesmo sentido das pegadas. A mesma simplicidade. O mesmo equador, na mesma língua portuguesa, aos retratos de família, da África à América, aos olhos do mar.


Não há fronteiras quando se acolhe um lugar.


E se o fim deste planeta está próximo, o que na verdade ainda o faz movê-lo?


O tempo não irá atrás de alguém que não busca o resistir da vida, tampouco, nenhuma riqueza justifica a fome da humanidade.

Precisamos de um sonho mais harmonioso. Ao mundo: o que se precisa – e seus pertences: apenas a humildade como uma forma de se agradecer pela vida.


Josette L.