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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

CAFÉ SEM LETRAS

Segui até a cafeteria.. Aroma amargo disperso saiu do café. Café sem letras e sem nome. O alfabeto se perdera tonto no giro da colher. O leite amontoando-se às cores dos grãos, a noite quase chegando. Brasília se põe devagar sobre a mesa, enquanto rabisco o meu papel. Tem um cheiro seco da noite, sem o estranho estalar das folhas do cerrado. Tem um olhar preso no emaranhado de nuvens quase ralas em cirros que atravessam o buscar do quase não sei horizonte onde enfiei meu olhar perdido.

O livro ali, sobre o estar secreto de uma possível reunião. No meio de homens de preto e seus sinceros cigarros apagados antes do entrar, suas gravatas sujas de um azul que não lembra o céu, mas a cor do cimento misturado da cidade “prisão ao céu aberto”, de uma cidade quase moderna, não fosse o nicho de seus antepassados.

Enfiei o livro na bolsa, ele ali não precisa respirar o ar das horas em que escuto o quase alcorão de meu trajeto profissional, quero que ele fique parado, como um coração simétrico, que não se desfaça, nem se despedace, mas que se mantenha integrado ao sistema que lhe é peculiar. Na hora certa sairá dali para as estantes de quem quiser servir-se de suas palavras.

A noite é quase longa, nem conto com as estrelas, a catedral me dá um aceno às escondidas e saio para os bares. Estão cheios de velas acesas e me presenteio com um vinho, cálice da noite, desconheço idéias que não me tragam prazeres, quero o prazer de estar ali.

No quarto de hotel, lembro de uma torre, um dia, lembro de um lago que troquei de nome, lago sul, lago azul, escambo de pronúncias, nada mais tão importante que o próximo momento em que pegarei o avião de volta para o norte.

Algo inquietante estar numa cidade em que se aprende a viver sozinho sem qualquer sorriso, algo inquietante, mas profundamente enriquecedor. Sou dispersa e quase me atrapalho com o dia, então vou a UNB buscar informações. Saio dali em transe, não como da última vez, mas com um outro brilho no olhar, de quem tem a certeza.

Hoje verei o pôr do sol do lago, ele é largo, mas não é profundo, em seu mirante vejo coisas em miniatura, como soldados de chumbo se derretendo, não de calor, mas de miragem, vejo Lock Ness e seu Moby Dick, cavalos marinhos de água doce, corcéis e plânctons passeando tontos em suas margens.

Brasília tem uma energia de quase centro, o centro do Brasil, o centro das horas, o centro de desérticas paisagens ralas de quase um cenário de filmes italianos.

Mas falando em comédia, saio todos os dias às cinco de meus compromissos e caminho em passos largos porque a grama é toda minha, posso ir aonde quiser e caminho, cada monte e pedaço de terra eu costuro com meus passos que nem são apressados, tão pouco lentos demais. Hoje não sei o que fazer com a noite. Ligo para meus amigos em Belém porque aqui não conheço ninguém.

Abro o caderno e escrevo. Deixei palavras escritas em cada lugar que fui. São meus rastros. Minhas bombas de terrorismos poéticos.

Ainda me restam dois dias. Às cinco da tarde, hora de Brasília busco o asfalto e apanho um táxi, pergunto ao motorista onde há um lugar vivo com pessoas alegres, vejo um amontoado de pessoas e desço, acho que terá um show, uma feira, não sei ao certo, as pessoas parecem tão próximas e me sento em uma das barracas. Meia hora depois recebo um oi de um rapaz muito simpático. Coincidência ou não ele estuda na UNB, começamos uma conversa agradável, inteligente, gentil. Saímos dali para uma dessas festas de bandas de rock, que eu tanto gosto, ele tem 32 anos.

Ficamos amigos então ele descobre que escrevo, e mais uma coincidência, ele também escreve e bem, ensaia publicar seu primeiro livro, mas tem um blog que se chama Delírios do planalto, eu rio de primeiro com essa ilusão, aqui estou de pára-quedas , de novo apaixonada pela vida, mas desta vez de pára-quedas, de olhos bem abertos em pleno ar de Brasília e suas asas de anjo coberto de poeira.

FIM DE FILME



Bankok – adoro a sonoridade dessa palavra – ela parece um misto quente sonorizando chuva e sombrinhas usadas e puídas por ter encostado nas paredes das ruas mal arrumadas dessa cidade que sequer passei. Onde fica bankok? De lá a gente conhece somente a paisagem pastel do cinema americano. Mas me lembra prostitutas e máfia. Me lembra chuva e clima de passagem.

No cinema depois que já passou muito tempo, se olha para tela e vem uma sensação vazia de uma imagem sem nada por dentro, o significado da morte permanente e a casca da vida por fora aparecendo uma viva lembrança de movimentos e vibrações nervosas de que algo existiu enquanto cenário e encenação de atores que agora estão no túmulo ou velhos bizarros falando sós em suas casas-museu.

Pinheiros negros nos lugares em que nada existia naquela rua vazia em que o céu abrigava um sol e que fazia sombra nas coisas hirtas, cacos do mundo, telhados com falhas e outras existências, camaleões sobre o limbo das palmeiras.

Ninguém ali para contar história alguma. As vozes do outro lado sendo gravadas depois que a cena passou. O animal empalhado em cima da janela gigante sobre uma pintura desgastada onde um emblema de vende-se esta se desfigurou. Cansou-se de existir, o êxodo do ouro sobrevivente, a permuta da localização.

Camufla-se o posto de gasolina, os carros enferrujados, o vento cortando o cerrado com seu grito de impunes sons que desafiam a velocidade das estradas.

Os homens em seus bonés, os cartazes do período, foto de um comercial no tempo em que o posto engolia enxurradas de dinheiro em troca de cervejas de boa marca e cigarros, a gasolina que ainda era pura e algumas pessoas pediam carona.

Tempo que ainda se acreditava em discos voadores, e se reuniam milhares de garotos propagandas de ets, com suas revistinhas de bolso, alguns jeeps paravam para olhar o céu, mas no máximo avistavam estrelas, ainda fazia um pouco de frio acolhedor então o homem fazia uma fogueira para se juntarem às histórias de terror.

Homens, mulheres, crianças, velhos... sumindo assim a poeira levantada borrifa um bafo no lugar onde a porta poderia estar aberta. A porta fechada que alimenta o resto do corpo da construção, mas o resto da construção é o vazio, as reticências de um roteiro rasurado de palavras e símbolos fetiche do sagrado passado.

Pendurada placa balança como um balanço num playground de um edifício de uma cidade qualquer longe dali, depois que as crianças enjoam do brinquedo e saem para suas escolas, depois que a sirene toca mostrando a hora da entrada, depois que se despede da paisagem de um gigante longa metragem filmado numa década em que se ainda acreditava em mocinhos e bandidos se fizessem de tonalidades diferenciadas.

Mais tarde, lá enquanto novos bichos pastam, como o dragão a pastar, a sede da terra é maior, mas não vem a chuva molhar esse chão, depois no futuro o chão é granito puro, invenção de quem não gosta de sentir o gosto da terra em seus pés e se afasta da natureza de onde veio embalado com sua origem. Mais tarde a terra ferve. E as bandeiras que acenavam o porte dos lugares amanhecem e anoitecem como a mesma cena que se repete e se desgasta no tempo que passa e que passa e que passa sobre os calendários que não existem ali. Aquelas cores preferem sumir e misturam-se tanto ao negro da terra, ao azul do céu quando o sol recomeça no verão tudo de novo, tudo de novo se renovando e se manchando de cores novamente novos sobretudos.

O novelo das espécies, a fauna renovada, a flora feita de ervas verdes oliva, as flores pequeninas nascidas às margens de um lago que um dia foi azul porque se encostava-se ao espelho do sol, selvagens flores que nascem nas beiras das estradas que não dão a lugar nenhum, senão continuísmo da própria paisagem em movimento das telas de um cinema.

Década de café e extremos, o cinema foi vendido porque não dava mais lucros filmes de arte, assim como a arte inútil em se ficar insistindo em existir, o cinema não mais se encaixou com a tecnologia digital exigida, novo formato de cenários que não são mais vivos, a metamorfose do gráfico da computação, o cenário de groselhas silvestres virtual, mudança de paradigma.

O cinema clichê piegas virou estamparia indefinida em um bazar pirata de um caminho marginal, tomando chuva e sol até o caos poético por suas infindáveis vastidões desertas do planeta crescer sem controle de suas cidades fantasmas.

Ri-se alto, reverbera a noite as pedras são lançadas, amontoam-se ao verbo lixo. Enxurrada de uivos, os cães sobem no asfalto para percorrer o inexistente, exaustos jogam-se no abismo para onde não mais se vê. A penumbra cobre a queda livre. Os ossos batem nas pedras.

Música de the end. Finita história de dois mundos. A morte e a vida. A vida e a morte. Um dia nem se sabe porque se cruzaram numa fronteira fatal.

As cores cinzentas dão lugares abertos às novas flores: Temporada de verão. o inverno está morto.

13 de junho de 2009







O SOL NEGRO
Do Livro de Contos “O Prédio” – 2002
Josette Lassance

Da janela morta a borboleta sai, ilesa, vestida com sua asa de pérola, ganha o imenso céu. Ela ficou escondida no quarto, entre suas paredes vivas que pareciam a engolir - um branco nostálgico quase prata era tomado pela grafite rude onde escrevera palavras quando embebida de sua solidão quase num ato único - correspondiam seus gritos: rabiscos, arabescos úmidos de idéias - cofres perpétuos de insanidades...

Seu cérebro carregava um par de lentes grossas de alumínio fosco: um par de óculos míopes. O que fazia ali era puro desejo, de sentir através das palavras, que acabavam arrancando os sentidos mais íntimos de suas necessidades existenciais.

Acordava e um pássaro pousara nu quase olhando para ela de um fio de rua - suas janelas por descuido ficaram abertas, mas quase sempre mortas para a rua, introspectivamente vomitava sua ira pela luz do sol. O pássaro ficou minutos e ensaiou uma canção rouca de alvorada – ela acordou e quase imperceptível mostrou-se num olho descoberto pelo lençol – dormia nua e quase todas as vezes sua nudez contrastava com sua desordem: um quarto sem início e fim – onde amontoados livros faziam perceber-se como um labirinto em que se perdia quase sempre nas tardes em que lia infinitamente Rimbaud em suas páginas seculares, palavras eternas, amareladas pelo pôr-do-sol.

Um negro saco de dormir cobria sua cama de solteiro e sua pele branca contradizia um sol negro desenhado na parede direita, parecia querer saltar os olhos e os restos de seus cigarros sujavam o chão de taco marrom.

Onde estaria ela, se a cada instante era um gomo de personalidade? Incógnita esfinge revestida de acaso.

Talvez fizesse diferença conhecer alguém que a fizesse amar tão forte ao ponto de não suportar-se liberar suas emoções mais intensas – como a de desfazer-se de um sol negro que a encobria e descobrir-se em sua alma o que pudesse vir a ser um sol de verdade, sem o escuro proposital de um corpo de quarto forjando arbitrariamente uma luz, invertendo seu sentido anti-horário do dia.

O dia grafitado energicamente na penumbra de seus pensamentos... O tempo ali pesado tomando eletro choques e vomitando parágrafos pervertidos cheios de cólera pelo mundo.

Não queria encontrar nada evidente, por isso, esgotava-se nas sensações de pertencer-se primitivamente à sua selvageria. E quando bebia muita cerveja nos bares que freqüentava, quase sempre fazia parecer-se a um porco, com seus cabelos negros descuidados, sujos de gordura soprada pelos ventiladores de teto e enfiava-se num vaso sanitário para vomitar toda a sua vontade de beber, um retorno onírico de desesperanças.

Depois ia para casa fatigada, exausta de ter perdido tantas chances... Como se deixasse de viver por isso.

Deixava-se caminhar com amigos durante as noites mais chuvosas – como a descer a ladeira do Bolonha como se fosse seu desfiladeiro. Lá, poderia sumir de tudo e ser tomada pelo escuro ou multiplicar-se as mil luzes artificiais das ruas inanimadas, como se fossem as casas mais vazias do mundo. Havia um silêncio de sábado, de sinagoga – e uníssono era o som de uma música ferida saindo da boca de um instrumento metálico: agudo/grave/seis pernas marcavam os sólidos paralelepípedos. Sangravam seus sapatos pesados nas veias do chão.

E os momentos todos passaram e o passado não servia.

E todas as formas foram mudando de lugar, a cada dia, a cada banho, a cada beijo...

Via-se apaixonada e os garotos cabeludos foram crescendo e o olhar para trás fora diminuindo de tamanho e sua importância já não era mais a mesma.

A borboleta saíra pela janela morta e sozinha entrou no planeta que escolheu desfrutar suas loucuras preferidas.




Josette Lassance

Livros publicados
1992 - Vida de Bruxa – poesia
1994 – Os gatos nus passeiam sobre os telhados sujos – Contos
1999 – Galeria dos Maus – Poemas
2002 – O Prédio/Contos urbanos
2007 – No Último Desejo a Carne é Fria – Coletânea com outros autores (Olga Savary, Israel Guttemberg, Carlos Correa).
2009-Os Cinco Felizes (contos)