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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

 banho de igarapé após passeio de bike
2009 - Parque do Utinga - Belém do Pará
eu, índia do norte, com orgulho

sexta-feira, 9 de novembro de 2012


 
O  jardim   e   o   dragão – Josette Lassance  07/11/2012

orgulha-me neste papel – eis uma coreografia – : Um dragão circula. E dança. Ele toma conta de tudo. Tem as vestes difusas de uma metamorfose. Digo que ele habita porque doma às vezes o que penso. Domina? 

O tempo me tira os dentes e planto ervas. Eu diria que é um ponto em seguida para viver. Faço meio século daqui a alguns dias. Como me sinto? Perto da morte ou da sorte de estar envelhecendo com brio?

Vejo-me no fundo das panelas quando ario. A água que lhe circunda me cai nas mãos, na ponta dos dedos e resfrio. O vento está quase úmido. É quase chuva descendo goela abaixo pela Amazônia. Preciso despertar para o desejo de cozinhar para o inverno.

Habito nesta terra de índios pintados de luta.  Mas não vemos a cara dos vencedores. Eles estão sempre com os destinos traçados. Desenham a terra em forma de planeta desabitado. E me expulsam, quando os devoram. Cobiçam as florestas, as folhagens, o ouro, o ferro, e plantam dinheiro. As plantações ganham os latifúndios.

Tenho que ficar aqui, ariando panelas enquanto escrevo verdades. O vento não mente. Ele sussurra a fome dos deuses. E dos homens com sede.

A água cairá aos montes. O sol ao belo horizonte descampado. Tudo ficará mais triste quando começar a chover. Então meu dragão se aquieta em seu círculo.

Meu jardim cresce. No meio das janelas onde circulam os olhares para a plenitude de um jardim, pequena amostra de um perfume raro.

Do que sinto falta? Esse vazio que invade os territórios livres. Enquanto a civilização finge viver feliz.

Eu estava lá quando a índia levantou seu terçado. Vi com estes meus olhos. Dancei com eles. O que poderia mais fazer senão dançar e entoar uns mantras? O que mais adiantaria?

Pergunto: O que mais adiantaria? 

Arte engajada? Performance. Pintura. Poesia. Eu iria morar lá e lutar? Com espadas contra um império? Quando dou aulas, invado meus alunos com questões. E falo dos perigos da vida. Da alienação. Mostro a vida como ela é.

Mas há um império sobre minha cabeça. E rolam cabeças. Por isso meu dragão está preso a um jardim circular. Circunscrito. Enquanto apanho as folhas secas para se dissolverem ao solo próximo a minha floresta. E o texto flui. Como um espiral de cores.

Quando perderei o medo de lutar? Porque lutei algum dia. Lutei mais do que com as palavras. E vieram muitas luas. E vi muitos tombarem sobre os mesmos propósitos. Iguais. Sem nenhuma diferença dos que seguravam as bandeiras explícitas da corrupção. Iguais como as dos coronéis, iguais aos dos latifundiários. Iguais a tudo que hoje posso dizer um vicioso círculo de insanidades.

Então o que posso pensar? Que meu dragão está no lugar certo?  Dentro de meus limites existenciais? Em sua prisão domiciliar. Em meu jardim perdido entre tentações?

O perfume das plantas; dos jasmins; do açaí, do corpo das flores miúdas disfarçam uma tranquilidade. A sonoridade da floresta acalma as manhãs.

Posso virar meus olhos. Posso escrever sobre o amor. O que adiantaria?

Vez por outra posso citar Ezra, e terminar meu texto assim:
 
 “Podeis reconhecer um mau crítico porque ele começa por falar do poeta e não do poema.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
da série de canecas com poesia, 2012
 
 

quarta-feira, 5 de setembro de 2012


O PÁSSARO DA CIDADE

 

 

O pássaro da cidade canta

ele não espera por nenhum jardim

ele canta para a casa em ruínas

e sua dor se impõe  em forma de voo

 

não desiste de ser um lírico

ele canta para o que encontra

encanta pelo que não espera

 

o pássaro da cidade canta

ao menos para nós mesmos

sua dor satírica

música de verdade.

 

 

Josette Lassance, do Livro Crônicas, sonhos & cafés, Ed. Cromos, 2011

 

 

 

 

 

 
Mariana Christo Lassance Cunha, minha bisa
Josiane, 1 ano, a caçula

segunda-feira, 14 de maio de 2012

"Gostava mais quando conseguia imaginar grandeza nos outros, mesmo que nem sempre houvesse.”
                               Adoro esse homem! Essa seria minha frase de hoje. Roubada de Charles!

quarta-feira, 2 de maio de 2012


a vida passa no papel

batida à
máquina

de escrever

©josettelassance



varais do deserto

secam

palavras ao sol

copyright©Josette Lassance

segunda-feira, 16 de abril de 2012


Crônica de viagem São Paulo & Rio e
 Rio & São Paulo
       Perto de uma fábrica abandonada, por certo uma fábrica de bonecas: Vejo cabelos. Quase um pouco mais das cinco da tarde – enquanto os navios de carga descansam – as paredes do ônibus vão mudando de cores – há o escurecimento – escutei conversas sobre a máfia chinesa em são Paulo – a lavagem do dinheiro na 25 de março – a mão de obra das Colombianas que costuram 12 horas por dia para ganhar 0, 35 centavos por peça.

Passo por minas velhas – ruínas da cidade não muito antiga – 35 anos atrás feitas por prédios disformes usados e cinzentos – me cubro um pouco mais do frio que se mistura ao ar condicionado.


     Há partes do Rio que não me interessam – tão pouco o hálito de alguém ao lado chupando halls, tudo num aroma tão extremo – fortes aromas – as casas vão ficando triangulares – mais containers com o escrito TEX – China. Aqui recebemos uma espécie de pré-lixo que vem da China Shipping – bugigangas baratas e viciosas sem função – exceto a de virar mais lixo mais tarde, tarde demais – o porto do Rio de Janeiro recebe e logo ao lado um muro de concreto dá origem a uma floresta (?) .

     Ritmo de um mangue forçado a ser, a pertencer naturalmente a um habitat animal que não pode ser vencido pela continuação desse mesmo concreto porque há de romper-se um dia.
      Muro quase interminável de rotinas: a flora e a fauna humana em harmonias. Logo acima uma travessia de pedestres (passarela) com ervas daninhas subindo os tubos de ferro e camelôs expondo suas peças retrôs.
     As grandes pontes são turvas e se confundem com águas acinzentadas que correm como espuma. Parecem estagnadas no espaço que percorrem enquanto o ônibus que eu viajo passa sua lataria azul – as janelas e as cortinas parecem zebras azuis, mas suas poltronas limpas e acolchoadas são finas e não me trazem conforto que eu esperava pelo valor que paguei para viajar 6 horas: 70 reais. O piso vermelho do corredor contrastando com o azul das cadeiras parece um tapete (tapetes-vermelhos que aguardam pessoas ilustres).


     A estrada – árvores plantadas na mesma direção – finas e secas pelo frio – eucaliptos dão um aroma cítrico ao caminho em que todos os carros percorrem em velocidades diferentes. Os passageiros começam a falar ao telefone. Hábito saído há pouco do relógio do tempo – havia antes um silêncio – como velejar pelos trópicos vazios do mundo – ou andar de trem – a fumaça e o vento batendo nos ossos dos rostos entre a presença metafísica de um ritual de caldeiras – máquinas – e o desbravar a beleza selvagem de sua paisagem real.    
     Estranha essa raiz desconexa de palavras ao vento pelo simples tagarelar – indispor o prazer da viagem da leitura da fotografia momentânea e registrada na retina – ou o apagar dos olhos para fugir da morte do campo – tudo se transforma então num costume comunicativo de repetições desnecessárias – retira-se a essência do passeio - do desaparecimento proposital de alguém que quer buscar um alimento novo para seu espírito arraigado com frequência de horários intranquilos disputados pelo correr dos metrôs e ônibus – a correria para todos os lugares impossibilitados por um fluxo fragmentado e interrompido do trânsito.

     Não se consegue mais o isolamento necessário para renovação de energias – nessa inversão – nossa casa – parece ideal – para quem carece de aventuras não o é – não substitui um trajeto pelo selvagem encontro que nos permitimos quando saímos para outros lugares – é diferente uma lembrança in lócus do espírito do corpo em movimento – perfeita harmonia – ver – tocar a terra – a água do mar – a chuva nas montanhas – a seiva das plantas – o calor do equador – o frio do sul – a árvore da montanha – os arbustos do cerrado – a fogueira das praias – o aroma apetitoso de uma tarde que se prolonga num acampamento de um lago – a floresta densa tropical – as alvoradas sem cheiro de combustível – quem viaja quer priorizar suas buscas – e vai além do que vê – como monumento da paisagem.
     Por isso faço as malas com pequenas coisas – livros de bolso – caneta e caderno para esboços de diários de bordo - binóculos – sandálias para trilhas – vestidos para absorver experiências metafóricas com a vida – olhar de grandes profundezas – desde a primeira luz até o anoitecer – tecer unidades desconectadas com seu bem estar interior. Conversar é preciso – ouvir é preciso – olhar é preciso – tudo é tão precioso – que não se deve fazer nada por fazer – nosso presente nos conforta de quaisquer coisas desconfortáveis do passado – e nos abre a mente – como nossas malas interiores – ilusão de que podemos viajar para qualquer lugar do mundo. E o melhor de tudo: Escrever sobre elas.

Do livro – Crônicas, sonhos & cafés/2011/Josette Lassance 




sexta-feira, 30 de março de 2012

eu, aos nove e meu primeiro poema:

" ... abri

a sala dava para rua

de lá via meus brinquedos imaginários"

CHUVA




chove, o leão de granito do jardim

a boca de lobo do asfalto

engolem o mau hálito da cidade


(publicado na Agenda Brasil Retratos Poéticos - Ed. Escrituras 2012)




chuva




chove

as folhas secas caem e mergulham

em degraus de pedra

chovem lembranças

avós & fogões à lenha

nas cozinhas frescas

de azulejos pintados

colho

as tonalidades daqueles dias

tia Mariana, tia Corina, tia Hilda, vovó Branca

todas sentadas em suas cadeiras de embalo

na grande sala

do tempo.







Março, 2011

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

                                          imagem tirada do blog
 http://www.gostodeler.com.br/materia/15002/casinha_no_interior.html

 chove

a casa de janelas vazias

se fecha

D. Vinoca em pé

chão de barro

paredes de barro

o alguidar no jirau colhe as pétalas de água

um aroma de lenha

destila

D. Vinoca

tão pequena

vestido de chita

me desenha um portal

e caminha com seu tamanco de couro e madeira

sob os trilhos do céu.



 (Josette Lassance, do livro CRÔNICAS, SONHOS E CAFÉS, Ed. Cromos, 2011)