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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

o pensamento a filtrar as impressões de busca.

abraço a pedra - o - barco - a gaivota - que abraça o mar - por este fim sem nome: infinito -

reunião

aqui reunimos - reunir é sinônimo de união - nem sempre - às vezes reunir significa discordar sempre sobre algum assunto que faz perturbar a ordem das coisas - a vida é como se existisse a linha perfeita para se caminhar sobre a sombra dos desejos - e fugir da linha significa apanhar uma fruta proibida - voar sobre as rochas - e voar sobre as rochas significa não existir o retilíneo risco da vida acertada de uma perfeição - então reunir para a paz - a paz acerta os nós - desfaz os mal - entendidos - e exclui os que deturpam a ordem. - a ordem deve ser mantida a qualquer custo - customizar - aparar as arestas - parar os que ousam não frear os impulsos - sair da linha - sair da vida - sair - ar - virtude da liberdade - vir a ser - selvagem - retornar - ao ausente - aqui reúnem-se os líderes - escolhidos a dedo - pelo muro das travessias - a ponte - a dividir - à vontade - a vontade dos deuses.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

AO POETA BOCA DE FERRO LUIS CARLOS FRANÇA

Ontem à tarde fui fazer uma prova de francês na universidade e coicidentemente ou não, quando dobrei a pequena esquina do prédio deparei-me com Harley, um de meus amigos poetas os quais dividíamos nosso trio de saraus de "Bar em Bar". Enquanto tomávamos um café, combinávamos nosso próximo sarau na Ilha do Mosqueiro, no Hotel Farol, foi então que subitamente me deu uma alegre vontade de ir nesse instante à casa do Luis, nosso outro companheiro das letras. Uma breve vontade enão interrompida pelo cotidiano cheio de outras ambições, compromissos que nos fazem dividir a memória em obrigações. Rimos e nos despedimos, eu e Harley.
À noite meu telefone toca e Vasco anuncia então a morte de nosso amigo. Caiu à tarde na calçada quase em frente ao Bar do Parque, lá ficou por mais de duas horas aguardando quem o levasse para um local apropriado, morto, na rua alguns amigos seus das artes sem querer passaram e se reencontraram no mesmo ponto exato, ir e vir de coincidências, a vida e a morte.
Então se iniciou uma corrente, os amigos, os parentes, os poetas, os atores, as bailarinas, a canção do teatro.
há uns quinze dias atrás, num domingo, Luis me ligou para que fosse a sua casa para conversarmos, brindarmos à vida. Estava ele então com um amigo, e fui, e ele falou de sua mãe pela primeira vez com os olhos infiltrados de água de lágrimas e disse que ela havia morrido de amor. Que seu pai a abandonara com os filhos porque havia se apaixonado por outra moça, e que era um homem da noite, dos bares, do mundo. Luis então se compadeceu a amar a mãe, cuidar de seus carinhos, cuidar de sua sorte. E um dia ela se foi e Luis adolescente, se viu só no mundo. Virou poeta. Virou artista. Virou símbolo de um Boca de ferro, em que grita suas dores, seus prazeres, suas emoções, sua simplicidade, seu amor pela terra, pelas cores do miriti, pelos ventos nas calçadas da cidade velha.
Ainda o sinto, ao ler seus poemas escuto sua voz, enérgica e doce, um poeta da simplicidade, um poeta que ficará pelas ruas de Belém mostrando seu olhar de dragão e seu coração sangrado.
Eu e Harley Dolzane fomos nos despedir dele durante a madrugada no Teatro Waldemar Henrique, seu corpo foi recebido por palmas, palmas pelo seu trabalho, ofício de escrever coisas puras num mundo tão duro. Todos os amigos se uniram e deram as mãos e fizeram uma oração. Luis Carlos não estava só, nunca esteve, era um poeta e sua boca de ferro.
Onde estiver amigo, fique tranquilo.
Um grande abraço de seus amigos
Josette e Harley.
Belém, 01 de julho de 2010.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

ali naquela noite os mesmos visitantes , os mesmos motoristas de taxis, as mesmas roupas


anos se passando, a mesma esquina.

as casas com seus cheiros, os jardins com suas plantas

a loção de barbear, a garagem com o opala amarelo,

ainda não lembro o nome, mas era maio, o sol começava a descascar meu muro nos mesmos lugares que a

 chuva fazia crescer limo,

fiquei preso no tempo e a vida passando nos comerciais, assim eu jogava os ossos mexidos, já

quase sem carnes, jogava sementes na terra machucada.

a rua e sua virilha, a vala, a ferida.

romantismo daquelas tardes mexia com a vida

dali em diante


caminhamos

sem saber por onde íamos

pois quando se reconhece uma cidade é porque já fazemos diversos percursos

então afinal, todos os dias são bons para a pesca de prazeres individuais.







 

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O ENCANTAMENTO

Extraído do livro "O Prédio", 2002
Josette Lassance

Naquele verde sustentado pelas vigas enferrujadas do edifício assim ele se vestiu, no silêncio o espelho se perfumava de brilho, aquela luz ocre cheia de varizes de teias de aranha diminuíam suas forças, ora entrava devagar a energia e se apagava como a madrugada, insano ele corria para o ferro de engomar, suas roupas tinham mistérios, seriam as únicas coisas com vida por aquelas ruas, ninguém duvida que por ali se pague o medo e se vingue dos padrões, ele é um homem pagão que mistura sua personalidade pérfida com todas as outras idades. Fuma um baseado atrás da cortina, de lá ele olha seu pequeno mundo, entre estrelas confinadas no seu ângulo quadrado de visão que ele submete a visões planetárias. Sua louça sanitária está suja e ele se depila no espelho do banheiro, três azulejos formam o triângulo da pia, depila-se ouvindo o rumor vivo das vilas próximas. Se aproxima do guarda-roupa como um viciado em sapatos, calças e meias, mas não é um viciado, a mesma poeira que perfura a cortina se destila na madeira pouco acetinada do móvel. Ali representa um personagem castrado, um homem, uma esperança de se manter vivo.

O imóvel é velho, úmido, abafado, seu ventilador alcança o ar e corta em mil dejetos a fumaça de seu cigarro macerado, o telefone toca a meio fio da rua, o telefone público (seu espaço alvo de ser um projétil de seu vivo esperar ser um espaço privado) em meio ele desce desesperado por sua ligação. Atende, uma voz fina e preguiçosa do outro lado, ele responde com dificuldade mas sem nenhuma ternura.

Volta para o hall, pega seu elevador até o quarto andar e anda por seu quarto como se vagasse, divaga sobre as possibilidades de sua noite, enterrado ali vivo entre seus pertences, sem dinheiro algum que lhe alugue um verbo, que lhe tome uma bebida quente, que lhe pague um jantar decente, que conheça alguém que o deixe às alturas.

Na travessia do quarto para as paredes da sala seu cinismo o interrompe, e se eu não fosse, e se talvez fosse, e se talvez viesse, mas se não viesse? Em pausa agarra suas chaves perfumadas e dá um nó na garganta, sai sem remorsos.

Olha uma vitrine, o manequim é como um sapo morto ressequido, assim ele se sente e se ressente e pressente que sapos podem ser loucos, e que sua loucura o assombra, e que pode não ter a aparência de um sapo morto e que um dia foi um sapo apenas louco, não não é, aquele manequim se projeta em seu interior como um perfume que não sai, o perfume do corpo, o perfume original de sua pele... Ele não se diz mais nada, sai dali olhando para o chão atravessado, em riscos percebe que as membranas de seus dedos estão inchadas, que a calçada tem cortes e entram em suas saliências algumas ervas daninhas, que as calçadas enfim estão rachadas e que a terra se mistura à lama dos esgotos e que as pedras não são mais virgens, mas são pedras trituradas, partes artificiais de cimento dissolvidas por algum baque, pelo triturar dos carros... Mas não se conforma com o inchaço, não se conforma com seus braços, com seu rosto, acaba sentado no meio da marquise, debaixo olha para os fios soltos da última lâmpada rebentada, vê naquilo um gosto quente se ferir porque os fios se encontram e formam faíscas. Formar faíscas é cruzar o pensamento e imaginar que tudo pode ser que tudo pode crer e que sair dali nesse mesmo instante e tentar buscar esse destino pode ser o mesmo que modificar seu ponto de vista.

Ele sai dali à procura do que não tem, quer encontrar em outras pessoas o seu avesso, mas sem nexo percebe que as mesmas pessoas têm objetivos e esses objetivos estão tão bem enterrados em suas caixinhas cranianas mas que pulsam como sonhos, e os sonhos agora divididos entre o ideal e o real se misturam a mundos virtuais, onde os desejos passam por uma camada fina de torpor que se extasia a cada segundo como a faísca na ausência da lâmpada, e depois vazia volta para casa do mesmo jeito que saiu.

Ele, o único personagem dessa história tem registros repetidos, sem escrever em papel algum, sua razão tem ciúme que sua emoção o aliene e entre sem medo nesse mundo sem volta da esterilidade passional, inverso, emoção e razão se fundem sem limites, são linhas paralelas, linhas de dualidade que põem em risco seu processo de consenso.

Ele vê do olho mágico algo a se impor numa das ruas que caminha, alguém parado olhando para o silêncio, alguém que masturba sua turbulência, turvo adentra seu espírito e se observa o quanto desesperado alimenta-se desses desejos...

Ele deseja e vê. O ombro despido, a pele tem ânsia, o rosto escondido na sombra que se projeta um poste entre os fios emaranhados, rota de papagaios perdidos, o cabelo acompanhando o vento quase frio da madrugada, a pensar na solidão que faz olhar o destino de seus olhos um percorrer único, como não estar ali por exemplo, ficar fitando mas o pensamento cheio de palavras.

Assim ele viu alguém, prestes a conhecê-lo, estava ali como se o esperasse, e sem pressa ficou olhando na distância que se fez permitir-se e aproximar-se fazia parte de uma energia que nos instantes que se seguissem poderiam possuir um encanto próprio.

Ao perceber-se invadida por uma sensação perigosa ela se virou e o olhou nos olhos, sem vê-los inteiros, vívidos por umedecer-se involuntários, algo a fez caminhar pelo escuro e ele foi atrás e perguntou seu nome, ela viria assim quase sem nome por isso nada respondeu então beijaram-se, com a intensidade de suas esperanças, beijaram-se ali mesmo no asfalto e tudo se prendeu a um só choque, a lâmpada rebentada do alto da marquise, seus fios pegaram fogo, e o fogo cresceu como a barba dos judeus ortodoxos, cresceu e formou uma enorme mancha no céu escuro, um grande incêndio tomou conta daquela rua, então ouviram-se estrondos daquele beijo, daquele incêndio de fios ansiosos, explodiram as paredes, explodiram as vidraças, explodiram as cadeiras, explodiram as calçadas.

E nada mais se viu na manhã seguinte. Todos estavam desencantados.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Censura

Censurar faz parte - ou quase parte - faria aqui um sentido do avesso se eu quisesse não sofrer mais - mas incompreendo - minha humanidade não permite - mas consente que em parte do que sente se refere ao pensamento castrador - o conjunto - esse desconjuntado modo de ser e não ser anarquista da humanidade - um grande paradoxo dentro de suas subjetividades - esse conjunto de normas a serem seguidas - parece gerar um filtro - e parece também gerar um transbordar - em direção a um descaminho - que é torto - irregular - feito piso frio da neve - e nossa robótica versão em ser socialmente aceito - mais ainda - nossa incapacidade em não falhar - falar é impróprio - gera algo como um motor cíclico dentro do cérebro - mais essa incerteza em viver - a morte de tudo - o que nos movimenta é a emoção - mas não devemos ser movidos por ela - devolvemo-nos a um retorno armado - desarmado - armado - a um início razoável de rasura - censura - edição de textos e sentimentos - edição de vida livre - claustro - há prazer numa leitura paralela - não há porquês justificáveis - minha robótica visão de funcionária - ordenada - correta - não há desequilíbrio - força - o poder regulariaza o universo - protótipo do futuro: quem comandará serão os jovens - futuros velhos - futuros pais - futuros magnatas - futuros homens e mulheres - censurar - o robótico termo - falar - falar - falar - algo nos oprime - mas algo nos alimenta - calar - calar - falar - duelo de dialéticas - minha humanidade não permite - o estado das coisas - o estado - sempre o estado.